A invenção da escrita
No princípio a comunicação era basicamente oral. Falar
era a única maneira de transmitir informações e expressar pensamentos.
Consequentemente, ouvir era o único meio de receber informação de outras
pessoas ou tomar conhecimento de seus pensamentos. Todo tipo de informação
(pensamentos, histórias, itens de uma transação comercial, etc.) dependia da
memória para a sua preservação.
A escrita ou grafia surgiu como um meio de comunicação
alternativo à expressão oral há 5.500 anos na mesopotâmia e consiste em
registrar marcas (símbolos que representam unidades de informação e ideias
humanas) em um suporte (madeira, argila, papel, etc.) através da utilização de
um instrumento (cinzel, tinta, etc.).
Geralmente a linha divisória entre a pré-história e a
história é atribuída ao tempo em que surgiram os registros escritos. A invenção
da escrita foi importantíssima para o desenvolvimento intelectual da humanidade
e para a preservação de sua história.
Segundo a Bíblia, a diversidade de idiomas não é
consequência da capacidade de comunicação humana. Em Gênesis aprendemos que a
variedade de línguas foi resultado de uma interferência direta de Deus na história
da humanidade.
“Ora, em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma só maneira de falar. Sucedeu que, partindo eles do Oriente, deram com uma planície na terra de Sinar; e habitaram ali. E disseram uns aos outros: Vinde, façamos tijolos e queimemo-los bem. Os tijolos serviram-lhes de pedra, e o betume, de argamassa. Disseram: Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra. Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam; e o SENHOR disse: Eis que o povo é um, e todos têm a mesma linguagem. Isto é apenas o começo; agora não haverá restrição para tudo que intentam fazer. Vinde, desçamos e confundamos ali a sua linguagem, para que um não entenda a linguagem de outro. Destarte, o SENHOR os dispersou dali pela superfície da terra; e cessaram de edificar a cidade.” Gênesis 11:1-8
Acredito que a invenção da escrita também faça parte da
providência divina, porque ela é nossa principal fonte de conhecimento sobre
Deus. A teologia classifica a revelação de Deus em duas categorias: natural e
especial. Segue a definição de Louis
Berkhof[1]:
A Bíblia atesta uma dupla revelação de Deus: uma revelação na natureza que nos cerca, na consciência humana, e no governo providencial do mundo; e uma revelação encarnada na Bíblia como palavra de Deus. A primeira atesta em passagens como as seguintes; “Os céus manifestam a Glória de Deus e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia e uma noite revela conhecimento à outra noite” Salmo 19.1, 2. “Contudo, não se deixou ficar sem testemunho de si mesmo, fazendo o bem, dando-vos dos céus chuvas e estações frutíferas, enchendo os vossos corações de fartura e de alegria” Atos 14.17. “porquanto o que de Deus se pode conhecer é manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Porque os atributos invisíveis de Deus, assim como o seu eterno poder como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”, Romanos 1.19, 20. Da revelação especial temos abundante prova no Velho e no Novo testamento. “O Senhor advertiu a Israel e a Judá por intermédio de todos os profetas e de todos os videntes, dizendo: Voltai-vos dos vossos maus caminhos, e guardai os meus mandamentos e os meus estatutos, segundo toda a lei que prescrevi a vossos pais e que vos enviei por intermédio dos meus servos, os profetas” 2 Reis 17.13. “manifestou os seus caminhos a Moisés, e os seus feitos, aos filhos de Israel” Salmo 103.7. “ninguém jamais viu a Deus: o Deus unigênito, que está no seio do pai, é quem o revelou” João 1.18. “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes, e de muitas maneiras aos pais, nos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo filho” Hebreus 1.1, 2.
A Bíblia é a revelação especial de Deus através das
letras.
A Bíblia – Do rolo ao códice
Durante o período bíblico o suporte mais comum para a
escrita era o papiro em formato de rolo. Cada livro das Sagradas Escrituras
poderia ser escrito em um rolo ou mais, dependendo de seu tamanho.
Os rolos eram guardados em uma grande caixa de madeira
com divisões internas para separá-los em livros proféticos, poéticos,
históricos e Pentateuco. Naquela época, possuir as Sagradas Escrituras
significava dedicar um bom espaço para acomodar todos os rolos; não era algo
prático para consultas rápidas e muito menos para o transporte. Hoje, quando
vamos à igreja, levamos nossas Bíblias debaixo dos braços, ou até mesmo nos
bolsos com muita facilidade; mas para Jesus isso era impraticável, observe que
ele precisou pegar um exemplar do rolo de Isaías na própria sinagoga, como está
registrado em Lucas 4:16-20.
A primeira grande invenção para o surgimento do livro foi
o papiro; a segunda, o codex. A
palavra codex ou códice vem de caudex, que eram tabuinhas cobertas de
cera nas quais se escreviam com a ajuda de um estilete metálico, essas
tabuinhas eram unidas por um cordão que passava por orifícios no canto esquerdo
de cada uma delas. A partir da ideia do caudex,
o processo para transformar os rolos em códices foi engenhoso e simples.
O texto bíblico era escrito em colunas simétricas na
longa folha de papiro do rolo. Cada coluna foi recortada e então empilhada para
ser costurada na lateral. A transformação do rolo em códice não só deu origem
ao livro como o conhecemos hoje, mas também facilitou o manuseio das Sagradas
Escrituras. Os muitos rolos foram transformados em um único volume, que ainda
era grande, mas transportável. Procurar por textos específicos ficou muito mais
fácil e rápido no formato com páginas, comparado ao processo de desenrolar e
enrolar de volta cada rolo consultado.
Comparados aos rolos, os códices eram mais econômicos.
Era possível aproveitar os dois lados da folha para escrever, reduzindo pela
metade a quantidade de papiro para produzir cada cópia completa das Sagradas
Escrituras. O papiro desgastava-se rapidamente no processo de abrir e fechar o
rolo, o que não acontecia com o códice. Sua capa de madeira contribuía para a
preservação das folhas por muito mais tempo. Lembre-se que estamos falando de
uma época anterior à imprensa[2], e
todas as cópias da Bíblia eram feitas à mão. Uma cópia completa das Sagradas
Escrituras devia custar muito caro!
Os mais importantes códices bíblicos são:[3]
Sinaítico, está
no Museu Britânico desde 1933, foi produzido cerca de 325 d.C., contém todo o
Antigo Testamento grego, além das epístolas de Barnabé e parte do Pastor de
Hermas.
Alexandrino,
de meados do século IV d.C., contém todo o Antigo Testamento grego e quase todo
o Novo Testamento, com omissão de 24 capítulos de Mateus, cerca de quarto de
João e oito de 2 Coríntios. Contém a Primeira Epístola de Clemente de Roma e
parte da Segunda. Está no Museu Britânico.
Vaticano, do
quarto século depois de Cristo, contém todo o Antigo Testamento e o Novo
Testamento com algumas omissões. Está na Biblioteca do Vaticano.
Efraemi,
produzido por volta de 450 d.C., acha-se na Biblioteca Nacional de Paris.
Baza,
encontrado por Teodoro Baza no mosteiro de Santo Irineu, na França, em 1581,
está vinculado ao quinto século d.C. e encontra-se atualmente na Biblioteca de
Cambridge, Inglaterra.
Washington,
produzidos nos séculos IV e V d.C., acha-se no Museu Freer, na capital dos
Estados Unidos da América.
Divisão em capítulos e versículos
Já aprendemos que a formatação das Sagradas Escrituras em
códices contribuiu na redução do custo de produção de cada exemplar e também
facilitou seu manuseio pelos leitores. A Bíblia tornava-se cada vez mais
popular e acessível. Assim como fazemos hoje, a Bíblia podia ser aberta para a
leitura imediata de qualquer texto sempre que necessário. Era conveniente não apenas citar as passagens
bíblicas, mas também mostrar, na própria Bíblia, os textos utilizados nos
argumentos da evangelização ou apologética.
A localização de cada livro dentro do códice era tão
fácil quanto hoje, bastava memorizar a ordem em que eles foram agrupados.
Avançar e retroceder na leitura do texto virando as páginas também era mais
simples do que ficar enrolando e desenrolando longos rolos. Todavia, a
localização de pequenas porções do texto bíblico ainda era trabalhosa.
Para facilitar a localização de porções menores dos
textos bíblicos, o teólogo Stephen Langhton, Bispo de Canterbury, na
Inglaterra, e professor da Universidade de Paris, na França, criou a divisão da
Bíblia em capítulos entre 1234 e 1242. Alguns estudiosos também atribuem a
divisão da Bíblia em capítulos a Lanfron, arcebispo de Cantuária, que viveu no século
XI; e a Hugo de Saint-Cheir, também do século XIII, que acrescentou algumas
modificações ao trabalho de Langhton.
Até a primeira metade do século XVI a Bíblia era dividida
apenas em capítulos. Somente em 1551, o Sr. Robert Stephanus chegou à conclusão
da necessidade de uma subdivisão ainda menor e dividiu os capítulos em
versículos.
Ajudou, mas complicou.
Tudo quanto foi apresentado até o momento não foi
trabalhado exaustivamente; mas o conteúdo é suficiente para compreender o
processo de transformação da Bíblia que resultou na formatação que conhecemos
hoje. Transformar os rolos em códices e adicionar capítulos e versículos aos
textos foram mudanças significativas que visavam facilitar o acesso às Sagradas
Escrituras, quanto a isso ninguém discorda. Entretanto, o que foi inicialmente
idealizado para ajudar acabou complicando um pouquinho. A subdivisão dos textos
em capítulos e versículos compromete a fluência natural do texto, afetando o
sentido do próprio texto.
A interpretação de um determinado texto bíblico pode ser
influenciada por sua divisão em versículos. Essa influência pode ser direta ou
indireta.
A influência direta
Considero uma influência direta na interpretação do texto
quando a própria divisão em versículos ou capítulos causa a quebra indevida do
texto. A divisão em versículos de Robert Stephanus é muito falha em algumas
passagens, por estar em total desacordo com o sentido do texto, e também é
possível encontrar problemas na divisão em capítulos. Vejamos alguns exemplos:
Problemas com a divisão em versículos
Efésios 1:5 deveria começar com as duas últimas palavras
do versículo anterior. A versão Almeida Edição Contemporânea mantém a tradução
mais literal do texto grego original, e o erro de divisão do versículo fica bem
claro. Compare a Almeida Edição Contemporânea com outras duas versões:
Almeida Edição
Contemporânea: (1:4) “Pois nos escolheu, nele antes da fundação do mundo,
para sermos santos e irrepreensíveis diante dele. Em amor (1:5) nos predestinou
para sermos filhos de adoção por Jesus Cristo...”
Almeida Revista e
Atualizada: (1:4) “assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do
mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor (1:5) nos
predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo,
segundo o beneplácito de sua vontade...”
Almeida Corrigida
e Revisada Fiel: (1:4) “Como também nos elegeu nele antes da fundação do
mundo, para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dele em amor; (1:5) E nos predestinou para filhos de adoção por Jesus Cristo, para si
mesmo, segundo o beneplácito de sua vontade...”
É importante ressaltar que os textos gregos originais não
tinham capítulos, versículos e nem mesmo pontuação. Descobrir qual das três
versões apresentadas é a mais próxima do manuscrito autógrafo[4]
é um verdadeiro desafio!
A Almeida
Corrigida e Revisada Fiel coloca a pontuação após as palavras em amor, da mesma forma que é encontrada
em O Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas, publicado pela SBB[5]. O
Novo Testamento Grego das Sociedades Bíblicas Unidas é, juntamente com a edição
Nestle-Aland, a edição do texto grego do Novo Testamento mais conhecida e mais
usada por comissões de tradução da Bíblia em todo o mundo. A versão Almeida Revista e Atualizada desloca a
pontuação para antes das palavras em amor,
mas adiciona desnecessariamente a conjunção e.
A Almeida Edição Contemporânea tem a
pontuação mais ousada de todas as três, mas é coerente e possível. E não fez nenhuma
adição ao texto.
Considero a Almeida Edição Contemporânea e a Revista e
Atualizada (mesmo com a adição da conjunção e)
as melhores versões, porque é mais coerente dizer que fomos predestinados em amor do que achar que nos
apresentaremos diante de Deus sem culpa em
amor. No próprio contexto da carta, Paulo escreve: “Mas Deus, sendo rico em
misericórdia, por causa do grande amor
com que nos amou, e estando nós mortos em nossos delitos, nos deu vida juntamente com Cristo...”
Efésios 2:4-5. Ser predestinado em amor para adoção de filhos está em perfeita
consonância com 1 João 3:1 – “Vede que grande
amor nos tem concedido o Pai, a ponto de sermos chamados filhos de Deus...”.
Observe o texto em Marcos 9:48-49. A primeira palavra do
versículo 49 é uma conjunção que possui três valores: 1) Coordenativa explicativa, ligando duas orações, na qual a segunda
oração esclarece a ideia contida na primeira. 2) Subordinativa causal quando a conjunção inicia uma oração subordinada
denotadora de causa e 3) Subordinativa final
ao abrir uma oração que indica a finalidade da oração principal. Portanto, para
preservar a unidade de informação do texto bíblico, os versículos 48 e 49 não
deveriam ter sido separados por nada além da simples pontuação. A Almeida
Revista e Atualizada faz ainda pior ao separar os versículo 48 e 49 por uma
epígrafe.
Na Epístola aos Romanos, bem como em Efésios e Coríntios,
encontramos muitas orações coordenadas e subordinadas separadas por versículos.
As conjunções, sejam coordenativas ou subordinativas, são usadas para unir duas
orações que se complementam para, juntas, encerrar um significado completo.
Isolar as orações conectadas por conjunções significa correr o risco de perder
parte da informação valiosa para a compreensão correta do texto.
Problemas com a divisão em capítulos
2 Reis capítulo 7 deveria começar no capítulo 6,
versículo 24; Isaías 53 deveria começar em 52:13; João 8 deveria começar em
7:53; Atos 5 deveria começar em 4:36 e Colossenses capítulo 3 deveria terminar
no capítulo 4, versículo 1.
A influência indireta
Considero uma influência indireta quando a divisão em
versículos não compromete a fluência natural do texto, mas faz com que o leitor
enxergue o versículo como uma unidade de informação independente do contexto. Na
verdade, o problema não está na divisão em versículos, mas na ignorância do
leitor. Esse é, sem dúvida, o erro mais comum! Examinemos alguns exemplos:
Atos 16:31 – “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e tua casa.”
Sempre encontro um crente desavisado esperando a conversão
automática de todos os membros de sua família com base nesse versículo. Observe que a conjugação verbal de serás salvo concorda com o pronome tu (tu serás salvo). Para suportar a
compreensão errada do texto, deveríamos encontrar a conjugação verbal no plural
(sereis salvos, tu e tua casa). Toda a Bíblia ensina que a salvação é
individual, e o livro de Atos não poderia ensinar diferente. Aquele foi o
momento do carcereiro crer e ser salvo. No versículo seguinte constatamos que o
evangelho foi pregado a ele e a toda sua casa. No versículo 34 está registrado
que seus familiares creram. Todos ouviram e creram na pregação; por isso, todos
foram salvos! Pode acontecer em algumas famílias, mas não é regra geral.
2 Coríntios 3:6 – “...a letra mata, mas o espírito vivifica.”
Letra não é sinônimo de estudo, razão, raciocínio lógico
ou capacidade intelectual para entender as Sagradas Escrituras. É claro que o
Espírito Santo é quem nos capacita a entender a Bíblia em sua dimensão
espiritual, mas nosso intelecto não é excluído do processo. Quando Paulo diz
que a letra mata, ele falava da interpretação legalista dos ensinamentos
mosaicos e da própria lei, que, devido ao pecado, leva à morte. Compare com
Romanos 7:5 e 6.
Tito 2:11 – “...a graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens.”
Esse versículo é apresentado pelos arminianos como prova
irrefutável de que Deus está acessível a todos os homens que desejarem em seus
corações ganhar a salvação. Eles entendem a parte final do versículo – a todos
os homens – como sendo uma oferta de salvação a cada homem individualmente, e
cada indivíduo, pela sua própria escolha, aceitará ou não a oferta de salvação.
Isso não é o que o texto ensina! Basta analisar o contexto desde o início do
capítulo sem isolar o versículo 11 como sempre fazem. Levando em consideração
que o versículo 11 está dentro do contexto das diversas classes de pessoas
crentes, mencionadas do versículo 1 até o versículo 10, podemos entender que a
graça de Deus se manifestou salvadora a todos os homens independente de sexo ou
idade, de ser livre ou escravo. Deus, que não faz acepção de pessoas, obviamente
manifestaria sua graça de forma salvadora a todo tipo de pessoa.
Tiago 4:8 e Apocalipse 3:20 também são equivocadamente
apresentados pelos arminianos como defesa do livre-abítrio do homem. Não passa
de uma tentativa frustrada de negar o monergismo[6],
pois o contexto desses versículos não tem a ver com a oferta de salvação,
predestinação ou eleição. Os destinatários da carta de Tiago eram os crentes da
diáspora, portanto, ele tratava com pessoas já salvas. O apelo não foi dirigido
a não convertidos, sugerindo que eles precisavam tomar a iniciativa para a
salvação, como os sinergistas[7]
querem afirmar. “Eis que estou à porta e bato” não foi pronunciado à porta do
coração do não convertido (como todo pastor gosta de empregar o texto de Apocalipse
3:20 no momento de apelo após a pregação). Jesus endereçou suas palavras aos
crentes da igreja em Laodiceia.
Conclusão
Greg Koukl oferece o conselho mais prático e relevante
para todos os cristãos que verdadeiramente desejam estudar e entender a Bíblia:
“Nunca leia um versículo da Bíblia!” Ele não poderia estar mais certo. Nunca
devemos ler um versículo da Bíblia,
mas sim todos eles!
Precisamos observar as palavras que abrem os versículos. O
versículo é iniciado por uma conjunção que o amarra ao versículo anterior de
alguma forma? Então não deveriam ser separados, ou excluiremos alguma
informação essencial à compreensão do texto!
Deus resolveu revelar-se ao homem através da linguagem
humana. Conhecer bem a sua própria língua é essencial para a compreensão da revelação
de Deus. Se você tem dificuldades com a língua portuguesa, você deveria
considerar a possibilidade de estudá-la para não correr o risco de limitar sua
compreensão da Palavra de Deus por falta de conhecimento de sua própria língua.
O estudo da hermenêutica e exegese bíblica não é um
privilégio apenas dos pastores e seminaristas. É possível encontrar bons livros
sobre hermenêutica à venda na maioria das livrarias evangélicas. Basta ter o
interesse de fazer um pequeno investimento financeiro e ter dedicação à leitura
para logo perceber os benefícios. Muitos desses livros são bem didáticos,
permitindo o estudo mesmo sem o auxílio de um professor. Um bom exemplo é o
“Manual Popular de Dúvidas, Enigmas e ‘Contradições’ da Bíblia” de Norman
Geisler e Thomas Howe, Editora Mundo Cristão. Além de oferecer boas respostas
para aqueles textos mais complicados de interpretação, os autores apresentam
uma lista de 17 dicas práticas para evitar erros grosseiros de interpretação
dos textos bíblicos. Vale a pena ler esse livro! Recomendo também o livro “Os
perigos da interpretação bíblica” de D. A. Carson, Editora Vida.
E por último, gostaria de ressaltar a importância de sempre
depender da direção do Espírito Santo para entender corretamente a Palavra de
Deus. Ore e peça sua ajuda antes da leitura. Mas não podemos nos esquecer de
que o Espírito Santo atua tanto em você como em outras pessoas. Reflita sobre o que Spurgeon escreveu em seu
livro sobre como ler a Bíblia:
Se temos pedido assim a orientação do Espírito Santo, segue-se que estaremos dispostos a usar todos os meios e ajudas para entendermos as Escrituras. Quando Filipe perguntou ao eunuco etíope se este entendia a profecia de Isaías, o eunuco respondeu: "Como poderei entender, se alguém não me explicar?" Em seguida, Filipe subiu à carruagem e abriu-lhe a Palavra do Senhor.
Alguns, sob o pretexto de estar sendo ensinados pelo Espírito Santo, se recusam a ser instruídos por livros ou por homens. Essa atitude não honra ao Espírito de Deus; pelo contrário, desrespeita-O, porque se Ele dá a alguns dos seus servos mais luz do que dá a outros — e é claro que Ele dá — esses estão obrigados a transmitir essa luz aos outros, e usá-la para o bem da igreja. Se, porém, o restante da igreja se recusa a receber essa luz, com que propósito o Espírito de Deus a deu? Nesse caso, haveria a sugestão de que há algum erro na dispensação dos dons e das graças, que é dirigida pelo Espírito Santo. Não pode ser assim. É do beneplácito do Senhor Jesus Cristo dar mais conhecimento e entendimento da sua Palavra a alguns dos seus servos do que a outros, e nossa parte é aceitar com alegria o conhecimento que Ele dá, da maneira que Ele quer dá-lo.[8]
Autor: André R. Fonseca
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca
NOTAS
[1]
Berkhof, Louis. Teologia Sistemática, 3ª edição. Editora Cultura Cristã, 2009, p.
35.
[2] Johannes
Gensfleisch zur Laden zum Gutenberg foi um inventor e gráfico alemão que
introduziu a forma moderna de impressão de livros - a prensa móvel- que
possibilitou a divulgação e cópia muito mais rápida de livros e jornais. O
primeiro livro a ser impresso por sua máquina de impressão foi a Bíblia em
1455.
[3]
Informações extraídas da Bíblia de Referência Thompson, Editora Vida, 2007, p.
1377.
[4] O
termo autógrafo é empregado para
designar o manuscrito original escrito pelo próprio autor.
[5]
Sociedade Bíblica do Brasil, quarta edição revisada, 1993, 13ª impressão, 2007.
[6] O monergismo
é a doutrina segundo a qual a conversão é obra exclusiva de Deus com nenhuma
contribuição do homem, visto que o homem natural não tem nenhum desejo por Deus
e não pode entender as coisas espirituais.
[7] O
sinergismo é a doutrina segundo a qual o homem, apesar do pecado original,
conserva o livre-arbítrio na busca de sua salvação e na obtenção da graça.
[8]
Spurgeon, Charles Haddon. Como ler a Bíblia - Editora Fiel, pp 9 e 10.

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