No blog do Cinco Solas, um visitante fez um comentário sobre a tradução da Nova Tradução na Linguagem de Hoje para o texto de Deuteronômio 32:8-9, segue o comentário extraído do blog:
"[...]Gostaria de relatar um fato que aconteceu comigo. Geralmente eu indico para crianças ou pessoas que afirmam não entender nada de bíblia a paráfrase NTLH. Mas depois que eu li Deuteronomio [sic] 32:8 na NTLH passei a olhar estas parafrases [sic] com profunda desconfiança...[...]
A questão será melhor compreendida comparando a NTLH com outra versão. Observe o destaque em negrito:
Nova Tradução na Linguagem de Hoje
"Quando o Altíssimo separou os povos e deu a cada povo as suas terras, ele marcou as fronteiras das nações, dando a cada uma o seu próprio deus. Mas escolheu Israel para ser o seu povo; os descendentes de Jacó pertencem ao SENHOR."
Almeida Revista e Atualizada
Almeida Revista e Atualizada
"Quando o Altíssimo distribuía as heranças às nações, quando separava os filhos dos homens uns dos outros, fixou os limites dos povos, segundo o número dos filhos de Israel. Porque a porção do SENHOR é o seu povo; Jacó é a parte da sua herança."
Como resolver essa questão de divergência tão gritante? Decidi escrever para a Sociedade Bíblica Brasileira e recebi uma resposta da Secretaria de Tradução e Publicações informando que meu questionamento seria tratado por um de seus consultores de tradução da SBB. Tive o privilégio de ser respondido pelo Dr. Vilson Scholz. E para a felicidade de todos, fui autorizado a publicar aqui no blog sua resposta na íntegra!
Como resolver essa questão de divergência tão gritante? Decidi escrever para a Sociedade Bíblica Brasileira e recebi uma resposta da Secretaria de Tradução e Publicações informando que meu questionamento seria tratado por um de seus consultores de tradução da SBB. Tive o privilégio de ser respondido pelo Dr. Vilson Scholz. E para a felicidade de todos, fui autorizado a publicar aqui no blog sua resposta na íntegra!
Estimado irmão
Agradecemos o seu contato.
Sua mensagem foi encaminhada ao Dr. Vilson Scholz, Consultor de Tradução da Sociedade Bíblica do Brasil. Abaixo, transcrevemos a resposta.
Que Deus o abençoe.
Fraternalmente em Cristo,
Secretaria de Tradução e Publicações
Sociedade Bíblica do Brasil
A leitura de Dt 32.8-9 na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH) tem dois reflexos, no mínimo: traz uma inquietude quanto ao que ali se encontra; ajuda a chamar a atenção para um não menos estranho texto na tradução de Almeida. Porque, se na NTLH diz que, “quando o Altíssimo separou os povos e deu a cada povo as suas terras, ele marcou as fronteiras das nações, dando a cada uma o seu próprio deus”, o texto de Almeida afirma que o Altíssimo fixou os limites dos povos, “segundo o número dos filhos de Israel”. A NTLH nos apresenta o Altíssimo dando a cada nação o seu deus; Almeida diz que o número dos filhos de Israel foi o critério para a fixação dos limites das diferentes nações. Como assim? Essas duas traduções não podem estar traduzindo o mesmo texto!
E, de fato, não estão. É que Almeida, assim como a maioria das traduções, segue o texto massorético da Bíblia hebraica (impresso na Biblia Hebraica Stuttgartensia). A maioria das traduções faz isso, inclusive a NTLH. Só que nem sempre. Até mesmo a tradução de Almeida se afasta do texto massorético vez que outra (Sl 22.16 é um exemplo. Se fosse traduzido o texto massorético, daria: “qual um leão as minhas mãos e os meus pés”). Mas, no caso de Dt 32.8, Almeida traduz o texto hebraico massorético. Por que se faz necessário dizer que é o texto hebraico massorético? Não bastaria dizer que é o texto hebraico? Não. É importante dizer que é o texto massorético. O texto hebraico massorético é o texto que foi preservado, padronizado, vocalizado e transmitido por eruditos judeus, durante a Idade Média, mais ou menos a partir do sétimo século da era cristã. A cópia mais antiga da Bíblia Hebraica completa de que dispomos, dentro dessa tradição massorética, é o Códice de Leningrado, datado de 1008 d.C., e reproduzido, sem alteração alguma, na Biblia Hebraica Stuttgartensia. Dizer que se trata do texto massorético é importante, pois hoje dispomos, em parte, de um texto hebraico muito mais antigo, descoberto em Qumran, em meados do século XX, entre os famosos rolos do mar Morto. Esse texto – e isso é digno de nota – é praticamente idêntico ao texto massorético, o que, diga-se de passagem, trouxe credibilidade ao texto massorético. Mas, vez que outra, existem diferenças, como em Dt 32.8. Também é importante dizer que dispomos desse outro texto “em parte”, porque nem de longe foi encontrada uma cópia do Antigo Testamento completo em Qumran. Mas foi encontrado um fragmento com esse trecho de Dt 32.
O que faz a NTLH, no caso de Dt 32.8? Ela não traduz o texto massorético, mas segue a orientação que se encontra no aparato crítico (um conjunto de anotações ao pé da página) da Biblia Hebraica Stuttgartensia. O que diz ali? Diz que um manuscrito encontrado em Qumran e a Septuaginta trazem um texto diferente. (O fragmento encontrado em Qumran diz: “filhos de Deus”.) Informa ainda o aparato crítico da Stuttgartensia que a Septuaginta, que é a tradução grega do Antigo Testamento, feita mais de dois séculos antes de Cristo (e, assim, supostamente baseada num texto hebraico bem mais antigo do que o texto massorético), traz a expressão “anjos de Deus”. E a nota no aparato crítico continua: “Assim a tradução grega de Símaco e a Vetus Latina". Ou seja, uma tradução grega dos tempos antigos e também as primeiras traduções latinas trazem um texto diferente do massorético. E termina assim a nota no aparato crítico da Stuttgartensia: "Provavelmente o correto seja filhos de Deus ou filhos dos deuses". Hoje, os especialistas em Bíblia Hebraica recomendam que se traduza este texto.
É o que faz a Nova Tradução na Linguagem de Hoje. Mas ela não é a única a ter um texto diferente, nesse lugar. O mesmo ocorre, em língua inglesa, na RSV (Revised Standard Version), na NRSV (New Revised Standard Version), na NEB (New English Bible), e, mais recentemente, na ESV (English Standard Version). Em língua portuguesa, esse texto registrado no aparato crítico da Bíblia Hebraica aparece, entre outras, na Bíblia Vozes e na Bíblia do Peregrino (de Luís Alonso Schökel). Almeida Revista e Atualizada não poderia refletir esse texto, pois foi feita numa época em que os manuscritos ainda estavam sendo descobertos em Qumran, na terra de Israel.
Esta é, em si, a questão textual. O passo seguinte é tentar explicar cada uma dessas possibilidades em termos teológicos, algo que não é, propriamente, tarefa do tradutor. Entra em campo, então, o exegeta. Dificilmente alguém poderá negar que o texto massorético, reproduzido em Almeida, soa estranho: Deus fixou os limites dos povos, segundo o número dos filhos de Israel. Que critério esquisito! A própria estranheza do texto já revela que deve haver, aqui, um problema textual, como de fato há.
Por outro lado, se o texto original é o que foi encontrado em Qumran e que está refletido na NTLH, como vamos entender isso? A situação fica menos complexa se tomarmos uma porção maior de texto, especialmente o que segue. Aliás, essa conexão entre Dt 32.8 e Dt 32.9 não fica clara na tradução de Almeida. NTLH, por sua vez, deixa claro que o texto continua: “Mas Deus escolheu Israel para ser o seu povo; os descendentes de Jacó pertencem ao SENHOR”. Aqui se apresenta um contraste. Israel é diferente. Israel é a porção do SENHOR. Ele “guardou-o como a menina dos olhos” (Dt 32.10, ARA). Os demais povos têm, cada qual, o seu deus; Israel tem o Deus verdadeiro. Que Israel não se esqueça disso.
Outro detalhe que fica bem evidente, nesse texto, é a soberania de Deus. Nada escapa ao seu controle. Paulo reitera isso em seu discurso em Atenas (At 17.26), ao fazer alusão a esse texto de Deuteronômio. E se o leitor estranha que o Altíssimo teria dado a cada nação o seu deus, já deveria ter sido preparado para isso num texto anterior, Dt 4.19, que diz, conforme Almeida Revista e Atualizada: “... não levantes os olhos para os céus e, vendo o sol, a lua e as estrelas, a saber, todo o exército dos céus, sejas seduzido a inclinar-te perante eles e dês culto àqueles, coisas que o SENHOR, teu Deus, repartiu a todos os povos debaixo de todos os céus”. Se este “repartir essas coisas a todos os povos debaixo de todos os céus” não fica claro, consulte-se a NTLH.
Por último, não se pode ignorar o gênero literário e a intenção do texto. Trata-se do Cântico de Moisés. É texto poético. Isto não significa que, num texto assim, podem aparecer as coisas mais estranhas e até mesmo as que contradizem o resto da Bíblia, mas significa que num texto poético as coisas são ditas de forma um pouco diferente. Não se trata de uma afirmação dogmática. É, de certa forma, uma afirmação empírica, baseada na observação da realidade do mundo. É assim que as coisas são: há várias nações, cada qual com seu deus; mas tampouco isso foge ao controle do Altíssimo. Israel, todavia, é um caso à parte. Por isso, e esta é a intenção do texto, que Israel não provoque a ira de Deus, adorando deuses estranhos (Dt 32.16).
Dr. Vilson Scholz
Consultor de Traduções da SBB
Fica aqui registrado o meu agradecimento à Sociedade Bíblica Brasileira por tratar a minha dúvida com tanta atenção e por autorizar a publicação da resposta do Dr. Vilson Scholz. Agradeço ao Denis da Secretaria de Tradução e Publicações que fez toda a ponte entre minha dúvida e o consultor de tradução. Agradeço ao Dr. Vilson Scholz, em nome de todos os leitores, por sua dedicação e por não nos deixar sem resposta.

André,
ResponderExcluirObrigado por "provocar" esse esclarecimento. Em termos de explicação da diferença de tradução foi inestimável.
Porém, mesmo considerando o texto alternativo ao massorético, comparando com as traduções em inglês, a tradução da NTLH diverge consideravelmente.
Mas considerando a hora e que estou cansadíssimo demais para pensar, vou ter que ler novamente.
Em Cristo,
Clóvis
Tome um texto completamente invulgar, e um versículo completa mente desconhecido da grande maioria (que crente hoje em dia conhece o "Cântico de Móises"? ué, ele cantava? não sabia ...), e perceba uma enorme diferença de tradução: é uma recei ta para se praticar aquilo que Jesus recomendou: "examinai as Escrituras". E porquê? "Por que cuidais ter nelas a vida eter na". Ou seja, Jesus estava recomendando a nós que façamos exa tamente isso, EXAMINAR, ESTUDAR, ENTENDER, CONHECER, PARA FI NALMENTE SABER O QUE DEUS QUER DIZER A NÓS. Amados, ISSO, E MUITO MAIS, é o que Deus espera de nós: uma sede, uma busca incessante, um ardoso "conhecer e prosseguir em conhecer" QUE COMEÇA E TERMINA NO ENTENDIMENTO DA PALAVRA. Bem ao contrário de professores de seminário que dizem que a Bíblia está "che ia de erros"... . Temos, isso sim, seminários lotados de pes soas que não se dão ao trabalho de examinar e entender desde sutilezas a diferenças gritantes.
ResponderExcluirParabéns André pela busca e obrigado por compartilhar esta verdadeira porção de riqueza de entendimento bíblico.
É verdade! Estudar dá trabalho, viver no "misticismo evangélico" é mais cômodo.
ResponderExcluirEu não fiz nada, os créditos são do mestre Vilson Scholz. Mas, na verdade, o mérito é de Deus. Ele não só nos chamou eficazmente das trevas para a luz, como também dispensou o dons para a edificação da Igreja. Vilson Scholz é a prova de que Deus cuida de sua igreja designando MESTRES, além de apóstolos, profetas, evangelistas e pastores - Ef 4:11-12.