segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Estudando a Bíblia com preconceitos!

Relevo da VI dinastia
ilustrando a circuncisão no Antigo Egipto.
Quando escrevi aquele post sobre a Bíblia de Estudo Almeida, acabei encontrando também alguns textos na internet ressaltando os mesmos pontos positivos dessa Bíblia de estudos da Sociedade Bíblica Brasileira. A única exceção foi a opinião de um autor desconhecido do baptistlink.com que fala horrores das notas de rodapé. Para demonstrar uma de suas críticas, segue a citação[1]

“Comentemos os graves erros das anotações por partes:

2.1 ‘Outra tradução possível...’ Aqui, sem a menor cerimônia, a nota de rodapé aproveita para fazer propaganda da deplorável Bíblia na Linguagem de Hoje (BLH), que de modo criminoso, usa o método-perversão de paráfrase que é também conhecida como a Equivalência Dinâmica [...]. Vejamos a semelhança com o texto evolucionista da BLH: ‘Não havia ordem nem vida na terra, que era coberta por um mar profundo. A escuridão cobria o mar...’

2.2 ‘Segundo uma idéia muito difundida entre os povos...’ Pergunto: O que é que nós crentes temos a ver com idéias de povos ímpios, idólatras e pagãos da antiguidade?! A voz do povo não é a voz de Deus! Se fosse, o Senhor Deus não se dava ao trabalho de deixar-nos a Sua Palavra. Será que os povos do Antigo Oriente referidos poderiam ser os idólatras Egípicios [sic] que cultuavam o sol? Ou os astrólogos Babilônicos? Ou os mitológicos Gregos? Sem a revelação da Palavra de Deus, qualquer ‘...idéia muito difundida entre os povos...’ não vale nada, e não passa de tradição pagã que deve ser categoricamente rejeitada pelo povo de Deus.”


Realmente existe crente que prefere viver no mundo da lua! Negar que os autores bíblicos registraram a revelação de Deus sem influência da cultura de sua época, ou quaisquer elementos impactantes da vida do autor do texto é fazer do Livro Sagrado uma simples fantasia. A veracidade das histórias, o realismo do que é narrado faz parte do conjunto literário que acrescentam confiabilidade à Bíblia. A Bíblia é nossa regra de fé, mas também é uma obra literária. Pessoas escreveram sobre Deus e sobre si mesmas, falaram dos planos de Deus e das implicações de seus planos na história do homem, na cultura, etc. 

Veja o que esse Panorama do Antigo Testamento[2] sobre a datação do livro de Deuteronômio: 

“Embora Deuteronômio se pareça mais com os Tratados Neo-Hititas de que qualquer outro tratado autêntico, há pequenas diferenças. Além disso, a falta de representação geográfica ampla nos tratados do primeiro milênio, infelizmente, dificulta a eliminação da possibilidade de a forma neo-hitita ter sido usada até o primeiro milênio em algumas regiões. Entretanto, o fato de Deuteronômio se assemelhar mais à forma hitita de tratado, sem dúvida, dá certa credibilidade à datação do livro no segundo milênio.” 

Trocando em miúdos: A semelhança de estilo literário do livro de Deuteronômio é similar ao mesmo estilo literário de outro povo datado da mesma época. Não é possível negar que a composição de Deuteronômio não tenha sofrido “positivamente” nenhuma influência da cultura de composição literária da época. Da mesma forma podemos concluir que os Salmos foram compostos no mesmo estilo musical ou poético com a rima que se fazia naquela época e pelos povos da mesma região. 

Ainda podemos citar outras influências culturais alheias ao povo de Deus que posteriormente foram incluídas no contexto bíblico e facilmente as aceitamos como tendo origem na Bíblia. A lei do levirato foi instituída como lei mosaica apenas em Deuteronômio 25:5-12, mas muito antes de se tornar uma lei mosaica a lei do levirato já era praticada desde os dias de Jacó e seus filhos, pelo menos este é o primeiro registro bíblico da lei do levirato em Gênesis 38:8 – “Então, disse Judá a Onã: Possui a mulher de teu irmão, cumpre o levirato e suscita descendência a teu irmão”

Outro elemento cultural introduzido no contexto bíblico talvez seja o maior símbolo do Antigo Testamento: a circuncisão. A circuncisão não era prática exclusiva dos hebreus. Na imagem do início do post temos um relevo egípcio provando que eles também faziam a circuncisão. Dizem que uma imagem vale por mais de mil palavras, então não preciso acrescentar mais nada. 

O apóstolo Paulo faz citação de alguns poetas: “pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração” – Atos 17:28. Se o autor da nota de rodapé da Bíblia de Estudo Almeida merece algum descrédito porque citou uma tradição pagã que deve ser categoricamente rejeitada pelo povo de Deus, o que dizer então da citação de Paulo? Em sua carta para Tito ele novamente faz citação de Epimênides, poeta cretense do século VI a.C – “Foi mesmo, dentre eles, um seu profeta, que disse: Cretenses, sempre mentirosos, feras terríveis, ventres preguiçosos”- Tito 1:12. 

Judas, autor de um livro canônico, faz citação de um livro apócrifo nos versículo 14 e 15. Uma clara referência ao livro de Enoque. Há também o registro de uma tradição judaica sobre uma disputa entre o anjo Miguel e o diabo pelo corpo de Moisés – Judas 9. 

Conclusão – A Bíblia fala de Deus, mas também fala do homem. A Bíblia fala dos valores divinos, mas também fala dos valores humanos, às vezes valorizando-os, muitas vezes condenando-os. Homens de Deus foram divinamente inspirados para escrever os Textos Sagrados, mas isso não significa que suas personalidades, estilo literário e outras influências foram descartadas do processo de composição. Hoje, Deus nos ajuda com a interpretação sem descartar nosso intelecto, estudos e pesquisas. Precisamos estudar a Bíblia de forma responsável e sem preconceitos. 


Autor: André R. Fonseca
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca

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NOTAS                                    
[2] Panorama do Antigo Testamento – Andrew E. Hill & J. H. Walton, Editora Vida Acadêmica, pg. 146
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