Hoje, as pessoas apelam com muita facilidade à autossuficiência no estudo bíblico mesmo sem nunca ter ido ao seminário, sem nunca ter lido uma teologia sistemática, às vezes, sem nunca ter lido a Bíblia completamente, com base num poder mágico de assessoria do Espírito Santo.
— Eu tenho o Espírito Santo em mim, e ele é suficiente para ensinar-me tudo quanto preciso entender da Bíblia sem depender de ninguém. Eu não preciso ir pela cabeça dos outros, pois é o próprio Espírito que me instrui!
Ledo engano! E, antes que você desista de ler o restante do texto, permita-me explicar e apontar onde está o engano.
Não quero negar a ação do Espírito Santo em nós, em nosso favor, para o entendimento perfeito e completo das Sagradas Escrituras. Ele age sim, e sem a sua ação nada poderíamos fazer. As coisas espirituais são discernidas pelos espirituais, e Ele não nos ajuda apenas no entendimento como também nos capacita a exercitar o que lemos e aprendemos d’Ele. Nossa vida cristã jamais amadureceria sem a Sua poderosa ação desde a leitura, compreensão e prática do que foi lido da Palavra de Deus. Ficou claro?
O erro está em excluir as outras pessoas do processo, como se o Espírito não as usasse para produzir em nós o resultado desejado. Muitas pessoas acabam menosprezando o aprendizado que vem do irmãozinho com quem dividem o banco da igreja no culto, do professor de EBD e, às vezes, até mesmo do pastor.
— Eu tenho o Espírito Santo em mim, e ele é suficiente para ensinar-me tudo quanto preciso entender da Bíblia sem depender de ninguém. Eu não preciso ir pela cabeça dos outros, pois é o próprio Espírito que me instrui!
Ledo engano! E, antes que você desista de ler o restante do texto, permita-me explicar e apontar onde está o engano.
Não quero negar a ação do Espírito Santo em nós, em nosso favor, para o entendimento perfeito e completo das Sagradas Escrituras. Ele age sim, e sem a sua ação nada poderíamos fazer. As coisas espirituais são discernidas pelos espirituais, e Ele não nos ajuda apenas no entendimento como também nos capacita a exercitar o que lemos e aprendemos d’Ele. Nossa vida cristã jamais amadureceria sem a Sua poderosa ação desde a leitura, compreensão e prática do que foi lido da Palavra de Deus. Ficou claro?
O erro está em excluir as outras pessoas do processo, como se o Espírito não as usasse para produzir em nós o resultado desejado. Muitas pessoas acabam menosprezando o aprendizado que vem do irmãozinho com quem dividem o banco da igreja no culto, do professor de EBD e, às vezes, até mesmo do pastor.
Talvez, o texto bíblico que parece dar amparo para esses irmãos equivocados quanto a origem do aprendizado seja 1 João 2:27: “Quanto a vós outros, a unção que dele recebestes permanece em vós, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine; mas, como a sua unção vos ensina a respeito de todas as coisas, e é verdadeira, e não é falsa, permanecei nele, como também ela vos ensinou.”
Devemos concorda que a Bíblia não pode entrar em contradição. Como João poderia defender o aprendizado autônomo do conhecimento de Deus se em outros textos somos ensinados a aprender por meio de outras pessoas? 2 Timóteo 2:2 diz: “E o que de minha parte ouviste através de muitas testemunhas, isso mesmo transmite a homens fiéis e também idôneos para instruir a outros.” Em At 2:42 – “E perseveravam na doutrina dos apóstolos...” - aprendemos que havia uma origem para o aprendizado. Daniel não desprezou o conhecimento de Deus que vinha da parte de Jeremias e com ele aprendeu – “no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi, pelos livros, que o número de anos, de que falara o SENHOR ao profeta Jeremias, que haviam de durar as assolações de Jerusalém, era de setenta anos” - Daniel 9:2. E até mesmo entre os apóstolos havia um compartilhar de conhecimento e aprendizado, veja o Pedro diz a respeito de Paulo: “Por essa razão, pois, amados, esperando estas coisas, empenhai-vos por serdes achados por ele em paz, sem mácula e irrepreensíveis, e tende por salvação a longanimidade de nosso Senhor, como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada, ao falar acerca destes assuntos, como, de fato, costuma fazer em todas as suas epístolas, nas quais há certas coisas difíceis de entender, que os ignorantes e instáveis deturpam, como também deturpam as demais Escrituras, para a própria destruição deles. Vós, pois, amados, prevenidos como estais de antemão, acautelai-vos; não suceda que, arrastados pelo erro desses insubordinados, descaiais da vossa própria firmeza; antes, crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo. A ele seja a glória, tanto agora como no dia eterno.” - 2 Pedro 3:14-18. E por último, o texto que fará conexão com 1 João 2:27, vejamos Gálatas 1:9: “Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos pregar evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.”
Se você considerar que havia aprendizado entre os profetas Daniel e Jeremias, que Pedro aprendia de Paulo e que os cristãos aprendiam dos apóstolos, o texto de 1 João precisa dizer algo diferente desse entendimento de que exista alguma autossuficiência de aprendizado aparte da ajuda mútua entre os irmãos. Até mesmo porque, também, estaríamos negando a ação do próprio Espírito que atua em todos para o aperfeiçoamento de toda a Igreja. O Espírito nunca atua por motivações egoístas; o benefício nunca se restringe ao indivíduo, sempre será uma ação para o benefício de todos que fazem parte do mesmo corpo! Veja o que Paulo afirma em Efésios 4:11-14 - “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo, até que todos cheguemos à unidade da fé e do pleno conhecimento do Filho de Deus, à perfeita varonilidade, à medida da estatura da plenitude de Cristo, para que não mais sejamos como meninos, agitados de um lado para outro e levados ao redor por todo vento de doutrina, pela artimanha dos homens, pela astúcia com que induzem ao erro.”
Se você realmente acredita que o Espírito o ensina sobre as coisas de Deus, saiba que foi para que você ensinasse a outros, e se Ele não está limitado a você, mas também ensina a outros, será para que você também possa aprender deles!
Portanto, o alerta de João não pode significar uma autossuficiência de aprendizado como se ninguém precisasse de um mestre para ensinar e instruir a igreja sobre o conhecimento de Deus. João, como sempre fez, alertava a igreja para não deixar-se engambelar pelas heresias do gnosticismo e docetismo.
Veja quantas vezes os apóstolos (João, Pedro e Paulo) alertaram a igreja quanto ao perigo que os falsos mestres representavam em seus dias. Paulo veementemente declara: “Como antes temos dito, assim agora novamente o digo: Se alguém vos pregar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema.”[1] Pedro também faz o alerta dizendo assim: “Mas houve também entre o povo falsos profetas, como entre vós haverá falsos mestres, os quais introduzirão encobertamente heresias destruidoras, negando até o Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição.”[2] E João acrescenta: “Quem é o mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? Esse mesmo é o anticristo, esse que nega o Pai e o Filho.”[3] “Estas coisas vos escrevo a respeito daqueles que vos querem enganar.”[4]
João está apelando para o conhecimento de Deus que a eles foi revelado desde o princípio, e não poderiam dar ouvidos aos ensinamentos heréticos daqueles que queriam enganar a igreja, até porque não faltava mais nada para aprender ou ensinar quanto à revelação da natureza divina de Cristo. Se alguém disser que Jesus não é o Cristo, considere-o anátema, pois não é o evangelho que os apóstolos têm anunciado desde o princípio. “Portanto, o que desde o princípio ouvistes, permaneça em vós. Se em vós permanecer o que desde o princípio ouvistes, também vós permanecereis no Filho e no Pai.”[5]
O Espírito Santo, no discurso de João, era completamente capaz de ensinar os cristãos como discernir o que era falso e o que era verdadeiro a respeito de Deus, mas nunca intencionou incentivar a igreja qualquer tipo de autossuficiência para o aprendizado teológico. João não poderia apelar para a confiança no ensinamento dele, que era conhecido pela igreja desde o princípio, escrever mais uma carta para ensinar e orientar a igreja e, ao mesmo tempo, negar tudo isso dizendo que ninguém precisava ensiná-los alguma coisa, porque tinham uma autossuficiência do Espírito. Não faria o menor sentido!
Espero que meus argumentos tenham sido suficientes para esclarecer esse mal entendido. A igreja depende dos ensinamentos dos mestres, homens de Deus que foram chamados e capacitados para essa tarefa, visando o bom crescimento de todo o corpo. Quando digo, chamados e capacitados, não estou limitado à capacitação espiritual apenas, mas também intelectual. Quem leva o ensinamento bíblico a sério precisa ler, estudar e até mesmo cursar um seminário. Não há mestre sem uma vida dedicada à sua vocação: aprender e ensinar!
Autor: André R. Fonseca
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andrerfonseca.com
NOTAS
1 - Gálatas 1:9
2 - 2Pedro 2:1
3 - 1João 2:22
4 - 1João 2:26
5 - 1João 2:24
2 - 2Pedro 2:1
3 - 1João 2:22
4 - 1João 2:26
5 - 1João 2:24
Fonte da imagem: http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/6/6b/Teacher_LSI.jpg

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