quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Deus soberano da "Terra dos sonhos" (Por que o anticalvinismo de Chesterton não me perturba)

Desde meus dias no Wheaton College, quando eu segui o conselho de Clyde Kilby para ler Ortodoxia de G. K. Chesterton, seu livro tem sido um dos meus favoritos. Eu acho que é o único livro que li mais de duas vezes (além da Bíblia).

Isso é estranho. Chesterton não foi só um católico romano, ele também odiava o Calvinismo. Então qual é a questão entre min e o livro Ortodoxia? Eu ainda acho que, pelo menos, meia dúzia de distintivos do catolicismo romano são prejudiciais à verdadeira fé cristã (por exemplo, a autoridade papal, a regeneração batismal, a transubstanciação, a justificação como infusão, o purgatório, a veneração de Maria). E eu acho que "as doutrinas da graça" ("teologia reformada", "calvinismo") são uma expressão da preciosa e saudável doutrina bíblica.

O que há em comum? ("Terra dos sonhos")
Mas eu continuo voltando para o livro Ortodoxia de Chesterton. A razão é que vemos o mundo de modo similar, e o Calvinismo que ele odeia não é o Calvinismo que eu amo.

  • Nós dois nos maravilhamos em que estamos nadando no mesmo mar infinito de maravilhas chamado de universo.
  • Nós dois não somos surpreendidos com narizes pontiagudos ou narizes achatados, mas que os seres humanos têm nariz.
  • Nós dois pensamos que é bem provável que a razão pela qual o sol nasce a cada manhã não é por causa de algo chamado "lei", mas porque Deus diz: "Faça isso de novo." E que ele diz isso mais como uma criança encantada do que como um chefe duro.
  • Ambos acreditamos que lógica e imaginação são totalmente compatíveis e que nenhuma será útil sem a outra.
  • Nós dois acreditamos que a magia do universo deve ter significado, e significado deve ter alguém para significá-lo.
  • Nós dois acreditamos que as glórias deste mundo são como bens resgatados de alguma ruína primordial - uma ruína cuja evidências estão por toda parte.
  • E nós dois acreditamos que o paradoxo é costurado na natureza do universo, e que resistir a isso leva a pessoa à loucura. "Os poetas não enlouquecem, mas jogadores de xadrez sim. Matemáticos enlouquecem, e os caixas, mas os artistas criativos muito raramente. . . . O poeta apenas pede para ficar com a cabeça nos céus. São aqueles que trabalham com a lógica que procuram fazer com que os céus entrem em suas cabeças. E é a cabeça que se espedaça. "
Essas e uma centena de outras coisas que concordamos, coisas felizes e que abrem nossos olhos para o mundo, que me mantêm voltando ao livro, porque ninguém diz essas coisas melhor do que Chesterton. Como C. S. Lewis, ele vê mais maravilhas em um dia comum do que a maioria de nós vê em uma centena de milagres. Vou continuar voltando para quem me ajudar a ver e ser surpreendido com o que está na frente do meu rosto - qualquer pessoa que puder ajudar-me a curar a doença de "ver e não enxergar".

Não é o mesmo calvinismo
Mas como pode então o Calvinismo despertar tanta alegria em mim, e tanto ódio em Chesterton? Porque eles não são o mesmo Calvinismo. Ele acha que o Calvinismo é o oposto de toda a maravilha tão feliz que temos em comum. O calvinismo que ele odeia é parte do racionalismo que leva as pessoas à loucura.

"Apenas um grande poeta Inglês enlouqueceu, Cowper. E ele foi definitivamente enlouquecido pela lógica, pela lógica feia e estranha da predestinação. A poesia não foi a doença, mas o remédio; a poesia, em parte, manteve-o saudável. . . . Ele foi condenado por João Calvino, ele quase foi salvo por John Gilpin."

Não, Sr. Chesterton, William Cowper não foi levada à loucura pelo calvinismo. Ele estava enlouquecido por uma doença mental que ocorreu em sua família por gerações, e ele foi salvo por John Newton, talvez o mais humilde e feliz calvinista que já viveu. E ambos viram as maravilhas da "Maravilhosa Graça" através dos olhos da poesia. Sim, isso foi um bálsamo curativo. Mas a doença não foi o Calvinismo - o mais John Newton não teria sido o feliz, saudável, santo amigo que ele foi.

O calvinismo que cresce na "Terra dos sonhos"
Aqui está a razão do porquê das flechadas de Chesterton no calvinismo não me derrubarem. O calvinismo que eu amo está muito mais perto da "Terra dos sonhos" que ele ama do que o racionalismo que ele odeia.

Ele ficaria, sem dúvida, perplexo com a minha experiência. Para mim a maior, mais forte, mais bonita, e mais frutífera árvore que cresce no solo da "Terra dos sonhos" é o Calvinismo. Aqui está a árvore grande o suficiente, e forte o suficiente, e alta o suficiente para deixar vivo todos os ramos paradoxais da Bíblia - e a onda de alegria sob o sol da soberania de Deus.

À sombra desta árvore, eu estava em liberdade das forças procustianas, antibíblicas, pressuposicionalistas do livre-arbítrio - a inflexível, suposição alienígena que sem o direito humano à autodeterminação final os seres humanos não podem ser responsáveis ​​por suas escolhas. Quando eu saí dessa estreita árvore racionalista para a sombra da árvore maciça do calvinismo, foi um dia feliz. De repente eu vi que era sobre isso a poesia. Essa é a árvore onde todos os ramos de todas as verdades que os homens têm tentado separar prosperam.

E a Lógica?
É uma grande ironia para mim que os calvinistas sejam estereotipados como "movidos pela lógica". Por 40 anos a minha experiência tem sido o oposto. Os calvinistas que eu conheci (Puritanos ingleses, Edwards, Newton, Spurgeon, Packer, Sproul) não são dirigidos pela lógica, mas dirigidos pela Bíblia. São os desafiantes que trazem a sua lógica para a Bíblia e anulam texto após texto. Ramos são decepados pela "lógica", não pela exegese.

Quem são os grandes apreciadores do paradoxo hoje? Quem são os pastores e teólogos que se agarram a cada dilema bíblico e juram ao Deus-Homem: Eu nunca vou me desfazer das duas coisas.[sic]

Não os críticos do Calvinismo que eu conheço. Eles leem do amor divino, e dizem que a predestinação não pode existir. Eles leem sobre a escolha humana e dizem que o governo divino de todos os nossos passos não podem existir. Eles leem de resistência humana, e dizem que a graça irresistível não pode existir. Quem é movido pela lógica?

Por 40 anos o Calvinismo tem sido, para mim, uma visão da vida que abraça o mistério mais do que qualquer visão que eu conheço. Não é movido pela lógica. É impulsionado por uma visão da inefável, vastidão galáctica da Palavra de Deus.

Vamos ser claros: isso não abraça a contradição. Chesterton e eu concordamos que a lógica verdadeira é a lei da "Terra dos sonhos." "Se as Irmãs Feias são mais velhas que a Cinderela, é (em um sentido rígido e terrível) necessário que Cinderela seja mais jovem do que as Irmãs Feias." Nem Deus nem sua palavra é auto-contraditória. Mas paradoxas? Sim.

Nós felizes calvinistas não temos a pretensão de obter os céus em nossas cabeças. Nós tentamos colocar nossa cabeça nos céus. Nós não reivindicamos respostas completas em paradoxos revelados. Acreditamos. Tentamos entender. E saímos com músicas e poesias de novo e de novo.

Do Dilema ao Unicórnio
Nós não ajustamos as categorias "cérebro-desconcertantes" das Escrituras para encaixar na razão humana. Tomamos como uma de nossas tarefas criar categorias nas mentes humanas que nunca existiram nas mentes antes - um trabalho que só Deus pode fazer - embora ele nos faça agentes. Por exemplo, trabalhamos para criar categorias de pensamento como estas:

Deus governa o mundo de felicidade e de sofrimento e pecado, até ao lançamento dos dados, e a queda de um pássaro, e a condução do cravo na mão de seu Filho; ainda, mesmo que ele queira que tal pecado e sofrimento exista, ele não peca, mas é perfeitamente santo.

Deus governa todos os passos de todas as pessoas, boas e ruins, em todos os momentos e em todos os lugares; mas de modo que todos são responsáveis ​​diante dele e vão arcar com as consequências da Sua ira apenas se eles não acreditam em Cristo.

Todas as pessoas estão mortas em seus delitos e pecados, e não são moralmente capaz de vir a Cristo por causa de sua rebelião, ainda, eles são responsáveis ​​por vir, e será justamente punido se não vir.

Jesus Cristo é uma pessoa com duas naturezas, divina e humana, de tal forma que ele sustentava o mundo pela palavra do seu poder, enquanto vivia no ventre de sua mãe.

O pecado, embora cometido por uma pessoa finita e nos confins do tempo finito é, contudo, merecedor de uma punição infinitamente longa, porque é um pecado contra um Deus infinitamente digno.

A morte do Deus-Homem, Jesus Cristo, assim apresentou e glorificou a justiça de Deus que Deus não é injusto para declarar justo pessoas ímpias que simplesmente creem em Cristo.

Estes são alguns dos entrelaçamentos, ramos paradoxais na árvore do calvinismo. Esses ramos não crescem no solo da lógica humana caída. Eles crescem no solo bíblico-saturado da "Terra dos sonhos." Aqueles que vivem lá acreditam que um dilema com dois chifres está provavelmente metamorfoseando em um unicórnio.

Agradeço a Deus por G. K. Chesterton. Seu dom para ver o mundo e por dizer o que ele vê é inigualável. Ele abre os olhos para maravilhas do que está lá. E o que resta é o trabalho dos dedos de Deus. Ele poderia ficar consternado ao ouvir isso, mas seus olhos me ajudaram a ver mais claramente do que nunca o Deus de Jonathan Edwards.


Autor: John Piper
Tradução livre: André R Fonseca
Fonte da imagem: http://en.wikipedia.org/wiki/G._K._Chesterton

1 comentários:

  1. André,

    Descobri Chesterton a pouco tempo, através do livro Ortodoxia. Confesso que as palavras dele pareciam um vento impetuoso em minha cabeça. Simplesmente sou apaixonado pela forma como algumas pessoas usam as palavras, não apenas pelo que dizem, mas pela forma como o fazem. E Chesterton me cativou, embora eu deva reler seu livro, para ir do deleite à instrução.

    Mas antes de retomar Ortodoxia, estou namorando em minha estante O Homem Eterno. Estou me preparando para o desafio.

    Quanto ao fato dele ser anticalvinista, tudo bem. Sou anti-romanista.

    Em Cristo,

    Clóvis

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