"Se Deus é por nós, quem será contra nós?". A ideia é que nenhuma oposição poderá nos esmagar. Para expressar isso Paulo coloca diante de nós a suficiência de Deus como nosso soberano protetor e a determinação de sua aliança de compromisso conosco.
"Se Deus é por nós..." Quem é Deus? Paulo fala do Deus da Bíblia e do Evangelho, o Senhor Yahweh; "Senhor, Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34:6), aquele a quem "o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido" (Jo 1:18). Este é o Deus que falou e anunciou sua soberania: "Eu sou Deus, e não há nenhum outro; eu sou Deus, e não há nenhum como eu. Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito permanecerá em pé, e farei tudo o que me agrada" (Is 46:9,10).
Este é o Deus que mostrou sua soberania tirando Abraão de Ur, Israel do cativeiro do Egito e mais tarde da Babilônia, e Jesus do túmulo; e que mostra a mesma soberania todas as vezes que levanta um pecador da morte espiritual para a vida. Este é o Deus de Romanos, o Deus cuja ira se manifesta "contra toda impiedade e injustiça dos homens" (1:18), mas que, no entanto, "demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (5:8).
Este é o Deus que chama, justifica e glorifica aqueles que desde a eternidade "predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho" (8:29). Este é o Deus do primeiro dos 39 artigos de religião (anglicanos):[4] o "único Deus, vivo e verdadeiro, eterno [...] de infinito poder, sabedoria e bondade; o Criador e Conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis". Este é (devo acrescentar) o Deus cujos caminhos temos estudado neste livro.
"Se Deus" — este Deus — é por nós — o que significa isto? As palavras por nós afirmam a aliança de compromisso. O objetivo da graça, como já vimos, é criar uma relação de amor entre Deus e os que creem, o tipo de relacionamento para o qual fomos criados, e o laço de comunhão pelo qual Deus se une a nós é sua aliança. Ele impõe isso unilateralmente pela promessa e pela ordem. Vê-lo-emos fazendo isso quando fala a Abraão em Gênesis 17: "Eu sou o Deus todo-poderoso [...] estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência [...] para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes [...] guarde a minha aliança" (v. 1,7,9).
Gálatas 3 e 4 mostram que todos os que colocam sua fé em Cristo, quer gentios quer judeus, são incorporados por meio de Cristo à descendência de Abraão, que faz parte da aliança. Uma vez estabelecida, o concerto permanece, pois Deus cuida para que assim seja. Como Pai, Esposo e Rei (estes são os modelos de relacionamento humano em que seu relacionamento de aliança é apresentado), Deus é fiel a sua promessa e a seu propósito. A promessa em si mesma — de ser "seu Deus""ser o teu Deus" — é ampla, pois, quando revelada, prova conter em si todas as "grandiosas e preciosas promessas" (2Pe 1:4) com as quais Deus se comprometeu a suprir nossas necessidades. Este relacionamento de aliança é a base de toda a religião bíblica: quando os adoradores dizem "meu Deus" e Deus diz "meu povo" está sendo utilizada a linguagem da aliança, como também na expressão "Deus é por nós.
O que se proclama aqui é a garantia divina de nos sustentar e proteger quando as pessoas e as circunstâncias nos ameaçam; cuidar de nós durante todo o tempo de nossa peregrinação na terra e levar-nos afinal para o regozijo total de si mesmo, não importa quantos obstáculos pareçam, no presente, estar no caminho que nos leva até lá. Esta simples afirmação "Deus é por nós" é na realidade uma das mais ricas e valiosas da Bíblia.
O que significa para mim o fato de poder dizer: "Deus está a meu favor"? A resposta é encontrada no salmo 56, em que a declaração "Deus está a meu favor" (v. 9) é a mola propulsora. O salmista foi colocado contra a parede: "Os meus inimigos pressionam-me sem parar; muitos atacam-me arrogantemente" (v. 2). No entanto, o conhecimento de que Deus está a seu lado traz uma nota de triunfo a sua oração. Em primeiro lugar, assegura-lhe que Deus não o esqueceu ou fez pouco caso de suas necessidades: "Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre (para preservar!); acaso não estão anotadas em teu livro (permanentemente registradas)?" (v. 8).
Segundo, dá-lhe a confiança de que "Os meus inimigos retrocederão, quando eu clamar por socorro" (v. 9). Terceiro, oferece a base para a confiança "que vence o pânico". "Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti [...] em Deus eu confio, e não temerei. Que poderá fazer-me o simples mortal?" (v. 3,4).
O que quer que a "carne" ou o "homem", como está no versículo 11, possa fazer ao salmista exteriormente, por assim dizer, no mais profundo sentido não poderá tocá-lo, pois sua vida real é a vida interior de comunhão com o Deus amoroso, e o Deus que o ama, não importa o que aconteça, lhe preservará a vida.
O salmo 56 também ajuda a responder à pergunta: Quem são as pessoas ("nós") favorecidas por Deus ("por")? O salmista apresenta três qualidades que em conjunto identificam o verdadeiro crente. Primeiro ele louva, e o que ele louva é a palavra de Deus (v. 4,10) — isto é, ele observa a revelação de Deus e o adora nela e de acordo com ela, em lugar de abandonar-se a suas descontroladas fantasias teológicas. Segundo, ele ora, e o desejo que impulsiona sua oração é a comunhão com Deus como objetivo e finalidade da vida "para que eu ande diante de Deus" (v. 13). Terceiro, ele paga — paga seus votos de fidelidade e gratidão (v. 12). A pessoa que louva, ora, agradece e é fiel tem em si as marcas do filho de Deus.
Qual foi, então, o propósito de Paulo ao fazer essa pergunta? Ele se opunha ao medo — o medo que o cristão tímido tem das forças agregadas contra si, as forças, por assim dizer, dele, dela ou deles. Paulo sabe que há sempre algumas pessoas, ou grupos delas, cuja ridicularização, desagrado ou hostilidade o cristão se sente incapaz de enfrentar. Paulo sabe que cedo ou tarde isso se torna um problema para todos os cristãos, mesmo para os que, antes da conversão, não se importavam com o que os outros pensassem ou dissessem a seu respeito. Ele sabe quão inibidor ou desolador esse medo pode ser. Mas ele também sabe a resposta para isso.
Pense, diz Paulo. Deus é por você, e você sabe o que isso significa. Agora veja quem está contra você, faça uma comparação entre os dois lados (note que a tradução "quem pode estar contra nós" é errada, e não atinge a ideia de Paulo; o que ele pede é a revisão realista da oposição humana e demoníaca, não a pretensão romântica de sua não-existência. A oposição é uma realidade: o cristão que não tem consciência dessa oposição precisa cuidar-se, pois está em perigo. Essa irrealidade não é exigência para o discipulado cristão, mas, ao contrário, evidência de fracasso).
Você "os" teme? Paulo pergunta. Não precisa mais temer, assim como Moisés já não precisava ter medo do faraó depois de Deus lhe haver dito: "Eu estarei com você" (Êx 3:12). Paulo adverte seus leitores para que façam o tipo de cálculo feito por Ezequias: "Não tenham medo nem desanimem por causa do rei da Assíria e do seu enorme exército, pois conosco está um poder maior do que o que está com ele [.-..] conosco está o Senhor, o nosso Deus, para nos ajudar e para travar as nossas guerras" (2Cr 32:7,8).
Augustus M. Toplady, que é o poeta da segurança cristã, como Isaac Watts é o poeta da soberania de Deus e Charles Wesley o da nova criação, expressa do seguinte modo a ideia da pergunta de Paulo:
Eu tenho um protetor soberano
"Se Deus é por nós..." Quem é Deus? Paulo fala do Deus da Bíblia e do Evangelho, o Senhor Yahweh; "Senhor, Deus compassivo e misericordioso, paciente, cheio de amor e de fidelidade" (Êx 34:6), aquele a quem "o Deus Unigênito, que está junto do Pai, o tornou conhecido" (Jo 1:18). Este é o Deus que falou e anunciou sua soberania: "Eu sou Deus, e não há nenhum outro; eu sou Deus, e não há nenhum como eu. Desde o início faço conhecido o fim, desde tempos remotos, o que ainda virá. Digo: Meu propósito permanecerá em pé, e farei tudo o que me agrada" (Is 46:9,10).
Este é o Deus que mostrou sua soberania tirando Abraão de Ur, Israel do cativeiro do Egito e mais tarde da Babilônia, e Jesus do túmulo; e que mostra a mesma soberania todas as vezes que levanta um pecador da morte espiritual para a vida. Este é o Deus de Romanos, o Deus cuja ira se manifesta "contra toda impiedade e injustiça dos homens" (1:18), mas que, no entanto, "demonstra seu amor por nós: Cristo morreu em nosso favor quando ainda éramos pecadores" (5:8).
Este é o Deus que chama, justifica e glorifica aqueles que desde a eternidade "predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho" (8:29). Este é o Deus do primeiro dos 39 artigos de religião (anglicanos):[4] o "único Deus, vivo e verdadeiro, eterno [...] de infinito poder, sabedoria e bondade; o Criador e Conservador de todas as coisas visíveis e invisíveis". Este é (devo acrescentar) o Deus cujos caminhos temos estudado neste livro.
"Se Deus" — este Deus — é por nós — o que significa isto? As palavras por nós afirmam a aliança de compromisso. O objetivo da graça, como já vimos, é criar uma relação de amor entre Deus e os que creem, o tipo de relacionamento para o qual fomos criados, e o laço de comunhão pelo qual Deus se une a nós é sua aliança. Ele impõe isso unilateralmente pela promessa e pela ordem. Vê-lo-emos fazendo isso quando fala a Abraão em Gênesis 17: "Eu sou o Deus todo-poderoso [...] estabelecerei a minha aliança entre mim e você e multiplicarei muitíssimo a sua descendência [...] para ser o seu Deus e o Deus dos seus descendentes [...] guarde a minha aliança" (v. 1,7,9).
Gálatas 3 e 4 mostram que todos os que colocam sua fé em Cristo, quer gentios quer judeus, são incorporados por meio de Cristo à descendência de Abraão, que faz parte da aliança. Uma vez estabelecida, o concerto permanece, pois Deus cuida para que assim seja. Como Pai, Esposo e Rei (estes são os modelos de relacionamento humano em que seu relacionamento de aliança é apresentado), Deus é fiel a sua promessa e a seu propósito. A promessa em si mesma — de ser "seu Deus""ser o teu Deus" — é ampla, pois, quando revelada, prova conter em si todas as "grandiosas e preciosas promessas" (2Pe 1:4) com as quais Deus se comprometeu a suprir nossas necessidades. Este relacionamento de aliança é a base de toda a religião bíblica: quando os adoradores dizem "meu Deus" e Deus diz "meu povo" está sendo utilizada a linguagem da aliança, como também na expressão "Deus é por nós.
O que se proclama aqui é a garantia divina de nos sustentar e proteger quando as pessoas e as circunstâncias nos ameaçam; cuidar de nós durante todo o tempo de nossa peregrinação na terra e levar-nos afinal para o regozijo total de si mesmo, não importa quantos obstáculos pareçam, no presente, estar no caminho que nos leva até lá. Esta simples afirmação "Deus é por nós" é na realidade uma das mais ricas e valiosas da Bíblia.
O que significa para mim o fato de poder dizer: "Deus está a meu favor"? A resposta é encontrada no salmo 56, em que a declaração "Deus está a meu favor" (v. 9) é a mola propulsora. O salmista foi colocado contra a parede: "Os meus inimigos pressionam-me sem parar; muitos atacam-me arrogantemente" (v. 2). No entanto, o conhecimento de que Deus está a seu lado traz uma nota de triunfo a sua oração. Em primeiro lugar, assegura-lhe que Deus não o esqueceu ou fez pouco caso de suas necessidades: "Registra, tu mesmo, o meu lamento; recolhe as minhas lágrimas em teu odre (para preservar!); acaso não estão anotadas em teu livro (permanentemente registradas)?" (v. 8).
Segundo, dá-lhe a confiança de que "Os meus inimigos retrocederão, quando eu clamar por socorro" (v. 9). Terceiro, oferece a base para a confiança "que vence o pânico". "Mas eu, quando estiver com medo, confiarei em ti [...] em Deus eu confio, e não temerei. Que poderá fazer-me o simples mortal?" (v. 3,4).
O que quer que a "carne" ou o "homem", como está no versículo 11, possa fazer ao salmista exteriormente, por assim dizer, no mais profundo sentido não poderá tocá-lo, pois sua vida real é a vida interior de comunhão com o Deus amoroso, e o Deus que o ama, não importa o que aconteça, lhe preservará a vida.
O salmo 56 também ajuda a responder à pergunta: Quem são as pessoas ("nós") favorecidas por Deus ("por")? O salmista apresenta três qualidades que em conjunto identificam o verdadeiro crente. Primeiro ele louva, e o que ele louva é a palavra de Deus (v. 4,10) — isto é, ele observa a revelação de Deus e o adora nela e de acordo com ela, em lugar de abandonar-se a suas descontroladas fantasias teológicas. Segundo, ele ora, e o desejo que impulsiona sua oração é a comunhão com Deus como objetivo e finalidade da vida "para que eu ande diante de Deus" (v. 13). Terceiro, ele paga — paga seus votos de fidelidade e gratidão (v. 12). A pessoa que louva, ora, agradece e é fiel tem em si as marcas do filho de Deus.
Qual foi, então, o propósito de Paulo ao fazer essa pergunta? Ele se opunha ao medo — o medo que o cristão tímido tem das forças agregadas contra si, as forças, por assim dizer, dele, dela ou deles. Paulo sabe que há sempre algumas pessoas, ou grupos delas, cuja ridicularização, desagrado ou hostilidade o cristão se sente incapaz de enfrentar. Paulo sabe que cedo ou tarde isso se torna um problema para todos os cristãos, mesmo para os que, antes da conversão, não se importavam com o que os outros pensassem ou dissessem a seu respeito. Ele sabe quão inibidor ou desolador esse medo pode ser. Mas ele também sabe a resposta para isso.
Pense, diz Paulo. Deus é por você, e você sabe o que isso significa. Agora veja quem está contra você, faça uma comparação entre os dois lados (note que a tradução "quem pode estar contra nós" é errada, e não atinge a ideia de Paulo; o que ele pede é a revisão realista da oposição humana e demoníaca, não a pretensão romântica de sua não-existência. A oposição é uma realidade: o cristão que não tem consciência dessa oposição precisa cuidar-se, pois está em perigo. Essa irrealidade não é exigência para o discipulado cristão, mas, ao contrário, evidência de fracasso).
Você "os" teme? Paulo pergunta. Não precisa mais temer, assim como Moisés já não precisava ter medo do faraó depois de Deus lhe haver dito: "Eu estarei com você" (Êx 3:12). Paulo adverte seus leitores para que façam o tipo de cálculo feito por Ezequias: "Não tenham medo nem desanimem por causa do rei da Assíria e do seu enorme exército, pois conosco está um poder maior do que o que está com ele [.-..] conosco está o Senhor, o nosso Deus, para nos ajudar e para travar as nossas guerras" (2Cr 32:7,8).
Augustus M. Toplady, que é o poeta da segurança cristã, como Isaac Watts é o poeta da soberania de Deus e Charles Wesley o da nova criação, expressa do seguinte modo a ideia da pergunta de Paulo:
Eu tenho um protetor soberano
Invisível, porém sempre ao meu alcance
Imutavelmente fiel para salvar
Poderoso para dirigir e ordenar.
Ele sorri e meu conforto aumenta
Sua graça como o orvalho cairá
e muralhas de salvação rodearão
a alma que ele se alegra em defender.[5]
Compreenda isto, diz Paulo; firme-se nisso, deixe que essa certeza tenha impacto sobre você em relação ao que enfrenta nesse exato momento; ao conhecer a Deus como seu soberano protetor, irrevogavelmente comprometido com você pela aliança da graça, você encontrará tanto a libertação do medo quanto novas forças para a luta.
Compreenda isto, diz Paulo; firme-se nisso, deixe que essa certeza tenha impacto sobre você em relação ao que enfrenta nesse exato momento; ao conhecer a Deus como seu soberano protetor, irrevogavelmente comprometido com você pela aliança da graça, você encontrará tanto a libertação do medo quanto novas forças para a luta.
NOTA
4. Livro de oração comum, 1950, p. 603.
5. Terceiro verso do hino Inspirer and hearer of prayer, 1774.
Extraído do livro: O Conhecimento de Deus, J. I. Packer - Título
original: “Knowing God” - Tradução de Cleide Wolf e Rogério Portela, 2a
Edição - Editora Mundo Cristão
0 comentários:
Postar um comentário
Participe! Escreva um comentário, opinião, dúvida ou crítica. Debater e compartilhar ideias são ótimas ferramentas para o amadurecimento. Seu comentário poderá sofrer moderação e será apagado sem aviso prévio se houver quebra de decoro. Comentários em CAIXA ALTA ou sem identificação (anônimo) serão rejeitados.