terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Aspectos comuns das religiões pagãs no AT

Certos aspectos eram comuns à maioria dessas religiões pagãs. To­das elas participavam da mesma visão do mundo, que se centrava na localidade e seu prestígio. As diferenças entre as religiões dos su­mários e dos assírio-babilônios ou entre as religiões dos gregos e dos romanos eram muito pequenas. 

A. Muitos Deuses. Em sua maioria, essas religiões eram politeístas, o que significa que reconheciam muitos deuses e demônios. Uma vez admitido ao panteão (coleção de divindades de uma cultura), o deus não poderia ser dele eliminado. Ele havia ganho "estatura divina". 

Cada cultura herdava idéias religiosas de seus predecessores ou as adquiria na guerra. Por exemplo, o que Nanna (deus da Lua) era para os sumérios, Sin era para os babilônios. O que Inanna (deusa da fertilidade e rainha do céu) era para os sumérios, Ishtar era para os babilônios. Os romanos simplesmente assumiram os deuses gregos e lhes deram nomes romanos. Assim, para os romanos Júpiter era igual a Zeus, deus do firmamento; Minerva equivalia a Atena como deusa da sabedoria; Netuno correspondia a Posêidon como deus do mar; e assim por diante. Em outras palavras, a ideia que se tinha do deus era a mesma; apenas o invólucro cultural era diferente. Assim, uma cultura antiga podia absorver a religião de outra sem mudar a marcha nem interromper o passo. Cada cultura não só reivindicava os deuses de uma civilização anterior, reclamava como seus os mitos da outra, introduzindo apenas mudanças insignificantes. 

Os principais deuses muitas vezes estavam associados a algum fenômeno natural. Assim, Utu/Shamash é a um tempo o Sol e o deus do Sol; Enki/Ea é tanto o mar como o deus do mar; Nanna/Sin é a Lua e também o deus da Lua. As culturas pagãs não faziam distinção alguma entre um elemento da natureza e a força por trás desse ele­mento. O homem antigo lutava contra as forças naturais que ele não Podia controlar, forças que poderiam ser ou benéficas ou malévolas. Chuva em quantidade suficiente garantia uma safra abundante, mas chuva em demasia destruiria essa colheita. A vida era de todo im­previsível, especialmente levando-se em conta que os deuses eram considerados como caprichosos e excêntricos, capazes de fazer o bem ou o mal. Os seres humanos e os deuses participavam do mesmo tipo de vida; os deuses tinham a mesma sorte de problemas e frustrações que os seres humanos. Este conceito chama-se monismo. Desse modo, guando o Salmo 19:1 diz: "Os céus proclamam a glória de Deus e o armamento anuncia as obras das suas mãos", ele zomba das crenças tfos egípcios e dos babilônios. Esses povos pagãos não podiam ima-Sinar que o Universo cumprisse um plano divino total. 

Os egípcios também associavam seus deuses a fenômenos da natureza: Shu (ar), Rê/Hórus (Sol), Khonsu (Lua), Nut (firmamento), e assim por diante. A mesma tendência aparece na adoração hitita de Wurusemu (deusa do Sol), Taru (tempestade), Telipinu (vegetação), e diversos deuses de montanha. Entre os cananeus, El era o sumo deus do céu, Baal era o deus da tempestade, Yam era o deus do mar, e Shemesh e Yareah eram os deuses do Sol e da Lua respectivamente. Por causa desta desnorteante linha de divindades da natureza, o pagão jamais poderia falar de um "universo". Ele não fazia ideia de uma força central que a tudo une, e pela qual todas as coisas existem. O pagão acreditava viver num "multiverso". 

B. Adoração de Imagens. Outro traço comum da religião pagã era a iconografia religiosa (fabricação de imagens ou totens para adoração). Todas essas religiões adoravam ídolos; só Israel era oficialmente anicônica (isto é, não tinha imagens, não tinha nenhuma representação pictórica de Deus). O segundo mandamento proibia imagens de Jeová, como os bezerros de Arão e de Jeroboão (Êxodo 32; 1 Reis 12:26ss.). 

Mas religião anicônica nem sempre era a história toda. Os israelitas adoraram ídolos pagãos enquanto na escravidão do Egito (Josué 24:14), e muito embora Deus banisse seus ídolos (Êxodo 20:1-5), os moabitas induziram-nos de novo à idolatria (Números 25:1-2). Idolatria foi a ruína dos dirigentes de Israel em diferentes períodos de sua história, e Deus finalmente permitiu que a nação fosse derrotada "por causa dos seus sacrifícios" a ídolos pagãos (Oseias 4:19). 

A maioria das religiões pagãs retratava seus deuses de maneira antropomórfica (isto é, como seres humanos). Na verdade, só um perito pode olhar para um retrato de deuses e de mortais babilônios e dizer quem é quem. Os artistas egípcios comumente representavam seus deuses como homens ou mulheres com cabeças de animais. Hórus era um homem com cabeça de falcão; Sekhmet era uma mulher com cabeça de leoa; Anúbis era um chacal, Hator uma vaca, e assim por diante. Os deuses hititãs podem ser reconhecidos por algum outro objeto distintivo, como um capacete com um par de chifres. Os deuses gregos também eram retratados como humanos, mas sem as berrantes características das divindades semíticas. 

C. Auto-Salvação. Qual a importância da representação dos deuses como seres humanos? Os capítulos iniciais do Gênesis dizem que Deus criou o homem à sua imagem (Gênesis 1:27), mas os pagãos tentaram fazer deuses à sua própria imagem. Quer dizer, os deuses pagãos eram meramente seres humanos ampliados. Os mitos do mundo antigo diziam que os deuses tinham as mesmas necessidades
que os seres humanos, as mesmas fraquezas e as mesmas imperfeições. Se houvesse diferença entre os deuses pagãos e os homens, era só de grau. Os deuses eram seres humanos feitos "maiores do que a vida". Com freqüência eram projeções da cidade ou da comuna. 

D. Sacrifício. A maioria das religiões pagãs sacrificava animais para acalmar seus deuses, e algumas até sacrificavam seres humanos. Visto como os adoradores pagãos criam que seus deuses possuíam desejos humanos, eles também ofereciam aos deuses ofertas de alimento e de bebida (cf. Isaías 57:5-6; Jeremias 7:18). 

Os cananeus criam que os sacrifícios possuíam poderes mágicos que levavam o adorador a cair nas graças e no ritmo do mundo físico. Contudo, os deuses eram caprichosos, e por isso os adoradores às vezes ofereciam sacrifícios para garantir vitória sobre os inimigos (cf. 2 Reis 3:26-27). Talvez seja por isso que os reis decadentes de Israel e de Judá consentiam nos sacrifícios pagãos (cf. 1 Reis 21:25-26; 2 Reis 16:13). Desejavam obter ajuda mágica no combate aos babilônios e aos assírios — de preferência a ajuda dos mesmos deuses que haviam dado vitória aos seus inimigos.



Extraído do livro: O Mundo do Antigo Testamento - JAMES I. PACKER, MERRILL G. TENNEY, WILLIAM WHITE, JR. - Editora Vida

Fonte da imagem: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Full_Book_of_Isaiah_2006-06-06.jpg

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