| "Pensador" Rodin Museu Rodin da Philadelphia, USA |
"A educação teológica e ministerial visa à formação especializada de pessoas vocacionada, para dedicarem suas vidas à obra do Senhor, na igreja, na denominação e no mundo. Deve ser cristocêntrica e bibliocêntrica, e oferecer aos vocacionados a oportunidade de aperfeiçoamento de suas atitudes, habilidades e ações, inspiradas no exemplo de Jesus Cristo."
A Convenção incumbe-se de estabelecer as normas e diretrizes das instituições teológicas a ela vinculadas, zelando pela excelência da qualidade de ensino e do seu produto.
Diretrizes: "Estabelecer como objetivos do programa de Educação Teológica e Ministerial, a visão acadêmica de: estímulo à pesquisa e aprofundamento intelectual; participação na vida denominacional; interesse prático; e fidelidade à Bíblia e às doutrinas e princípios batistas." (p, 64)
Destaquei aqui a opinião da Convenção, e conseqüentemente da igrejas batistas a ela filiadas, de que deve-se ter uma visão acadêmica de estímulo à pesquisa e aprofundamento intelectual. Minha intenção é mostrar que a disciplina Filosofia nos currículos das instituições teológicas é fundamental para que esta diretriz seja seguida.
Há muitas pessoas envolvidas no processo ensino-aprendizagem da educação ministerial: professores, alunos, funcionários, igrejas, etc. Estes são, antes, pessoas com vivências históricas. Estão inseridos em múltiplas relações intra e inter-pessoais, comunitárias, enfim, sociais. Sendo assim, encontramos evidências em nosso cotidiano da necessidade da filosofia para todos os seres humanos. Vejamos tais evidências:
O Tempo: "Quando pergunto: que horas são? ou que dia é hoje? minha expectativa é que alguém, tendo um relógio ou um calendário me dê uma resposta exata. Em que acredito quando faço a pergunta e aceito a resposta? Acredito que o tempo existe, que ele passa, pode ser medido em horas e ruas, que e que já passou é diferente de agora e o que virá também há de ser diferente deste momento, que o passado pode ser lembrado ou esquecido, e o futuro, desejado ou temido. Assim, uma simples pergunta contém silenciosamente, várias crenças não questionadas por nós." (Chauí, p.9)
A Realidade: Quando digo: "ele está sonhando", estou também afirmando que a realidade existe fora de mim, posso percebê-la e conhecê-la tal como é, sei diferenciar realidade de ilusão" (Chaui, p.Iô).
A Casualidade: Na declaração: onde há fumaça há fogo, existe a crença de que algo é causado por outro
"Como se pode notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças silenciosas, da aceitação tácita de evidências que nunca questionamos porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na realidade, na qua1idade, na quantidade, na verdade, na diferença entre realidade e sonho on loucura, entre verdade e mentira; cremos também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade, na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral, da sociedade." (Chaní, p.Ll)
Atitude Filosófica
O ser humano não se contenta, ou pelo menos não deveria se contentar, com tais crenças. Por isso pergunta-se sobre o que é cada uma delas. Deve desenvolver uma atitude filosófica, indagando, investigando, questionando e examinando o conteúdo. Deve perguntar: o que é o tempo? O que é subjetividade? O que é valor moral? O que é ... ?
Filosofia não é primeiramente o conjunto de idéias, pensamentos e conhecimentos. É, antes, uma "decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos, as situações, os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana; jamais aceitá-los sem antes havê-los investigado e compreendido." (Chauí, p.12)
Características da Atitude Filosófica
São a atitude critica e pensamento critico. A atitude crítica é não aceitar os pré-conceitos e pré-juízos. É preciso ter a iniciativa intelectual de negar o que está estabelecido. É reconhecer como o filósofo grego Sócrates: "O que sei é que nada sei". É preciso este distanciamento metodológico para não permitir que nossos preconceitos impeçam nosso conhecimento.
O pensamento critico é indagar: o que é? Por que é? Como é? Para que é? O mundo e nós mesmos.
Para que filosofia?
Raramente ouvimos alguém perguntar para que biologia ou matemática? Mas muitos não conseguem ver a finalidade da filosofia. Por essa e outras razões a pergunta para que filosofia tem sua importância. Em nossa sociedade estamos acostumados a pensar que finalidade é utilidade imediata; e como filosofia aparentemente não tem uma finalidade prática parece ser dispensável. Entretanto, para existirem as ciências, tecnologia, artes e outras ocupações humanas elas precisam pressupor a existência da verdade, dos procedimentos corretos, da racionalidade dos conhecimentos e outros aspectos. "Verdade, pensamento, procedimentos especiais para conhecer fatos, relação entre teoria e prática, correção e acúmulo de saberes: tudo isso não e ciência, são questões filosóficas. O cientista parte delas como questões já . respondidas, mas é a Filosofia quem as formula e busca resposta para elas" (Chauí, p.13).'"
Há quem circunscreva o campo da filosofia ao da moral, isto é, uma arte do bem-viver. "Mesmo que disséssemos que o objeto da Filosofia é apenas a vida moral ou ética, ainda assim, o estilo filosófico e a atitude filosófica permaneceriam os mesmos, pois as perguntas filosóficas - o que, por que e como - permanecem" (Chaní, p.14).
A Indagação
As perguntas acima, próprias da atitude filosófica, se dirigem inicialmente ao mundo que nos rodeia e às relações que mantemos com ele. Aos poucos se dirigem ao próprio pensamento e indagam: O que é pensar? Por que há o pensar? Como é pensa? Passa a ser reflexão, o pensamento interrogando a si mesmo.
A Reflexão Filosófica
O pensamento ao interrogar-se deseja conhecer: os motivos, as razões e as causas, o conteúdo e sentido a intenção ou finalidade de nosso pensar o que pensamos, dizer o que dizemos e fazer o que fazemos: Ela busca verificar se nossas crenças cotidianas são um verdadeiro saber, um conhecimento.
A atitude filosófica busca respostas sobre a essência, significação, essência e origem de todas as coisas; e a reflexão filosófica interroga sobre a capacidade e a finalidade humanas para conhecer e agir.
Filosofia: um pensamento sistemático
"A filosofia trabalha com enunciados precisos e rigorosos, busca encadeamento lógicos entre os enunciados, opera com conceitos ou ideias obtidos por procedimentos de demonstração e prova, exige a fundamentação racional do que é enunciado e pensado. Somente assim a reflexão filosófica pode fazer com que nossa experiências cotidiana, nossas crenças e opiniões alcancem uma visão crítica de si mesmas. Não se trata de dizer 'eu acho que', mas de poder afirmar 'eu penso que'. O conhecimento filosófico é um trabalho intelectual. É sistemático porque não se contenta em obter respostas para as questões colocadas, mas exige que as próprias questões sejam válidas e, em segundo lugar, que as respostas sejam verdadeiras, estejam relacionadas entre si, esclareçam umas às outras, formem conjuntos coerentes de ideias e significações, sejam provadas e demonstradas racionalmente."
Em busca de uma definição de filosofia
Há quatro definições gerais:
- Filosofia é visão de mundo.
- Filosofia é sabedoria de Vida.
- Filosofia é esforço racional para conhecer o Universo como uma totalidade ordenada e dotada de sentido.
- Filosofia.é fundamentação teórica e critica dos conhecimentos e das práticas.
Filosofia Inútil ou Útil?
"Platão definia a Filosofia como um saber verdadeiro que deve ser usado em beneficio dos seres humanos.
Descartes dizia que a Filosofia é o estudo da sabedoria, conhecimento perfeito de todas as coisas que os humanos podem alcançar para o uso da vida, a conservação da saúde e a invenção das técnicas e das artes. Kant afirmou que a Filosofia é o conhecimento que a razão adquire de si mesma para saber o que pode conhecer e o que pode fazer, tendo como finalidade a felicidade humana. Marx declarou que a Filosofia havia passado muito tempo apenas contemplando o mundo e que se tratava, agora, de conhecê-lo para transformá-lo, transfnrmação que traria justiça, abundância e felicidade para todos. Merleau-Ponty escreveu que a Filosofia é um despertar para ver e mudar o nosso mundo. Espinosa afirmou que a Filosofia é um caminho árduo e difícil, mas que pode ser percorrido por todos, se desejarem a liberdade e a felicidade.
Qual seria a utilidade da Filosofia?
Se abandonar a ingenuidade e os preconceitos do senso comum for útil; se não se deixar guiar pela submissão às idéias dominantes e aos poderes estabelecidos for útil; se buscar compreender a significação do mundo, da cultura, da história for útil; se conhecer o sentido das criações humanas nas artes, nas ciências e na política for útil; se dar a cada um de nós e à nossa sociedade os meios para serem conscientes de si e de suas ações numa prática que deseja a liberdade e a felicidade para todos for útil, então podemos dizer que a Filosofia é o mais útil de todos os saberes de que os seres humanos são capazes." (Chauí p.18)
A Filosofia e a Educação Teológica e Ministerial
A eliminação ou redução constante da carga horária da cadeira de Filosofia em nossas casas teológica conduzirá aperda de credibilidade e reconhecimento como instituições a nível superior. Pois a filosofia fundamenta os procedimentos humanos. Por isso, estudar filosofia capacita o futuro ministro a ter consciência e a optar entre as tendências, teológicas, ecudacionais, políticas, artísticas e científicas.
Precisamos superar o preconceito de que o conhecimento é pernicioso a fé. Os ministro de Deus precisam estar aptos para toda boa ebra e para dar a razão da esperança que há em nós. E nisto o conhecimento filosófico pode muito ajudar.
Para termos condição de diálogo com a sociedade contemporânea e, principalmente influir nos rumos do mundo moderno; para oferecer a visão cristã e os valores éticos ao ser humano precisamos de boa formação intelectual que não pede prescindir da Filosofia.
Autor: Jairo Silvestre da Silva
Professor de Filosofia do Seminário Teológico Batista Carioca
Texto utilizado pelo professor para discussão em aula.
Fonte da imagem: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Philly_Thinker.JPG
BIBLIOGRAFIA
Livro da 76ª Assembléia. São Luís, Convenção Batista Brasileira, 1995.
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Ática,1994.
GAARDER, Jostein. O Mundo de Sofia: romance da história da filosofia. São Paulo, Companhia das Letras, 1995.
ARANHA., Maria Lúcia de Arruda & MARTINS, Maria Helena Pires. Filosofando. São Paulo, Ed, Moderna, 1986.
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