quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Mais do Mesmo: Os Novos Samaritanos

O Jornal O Globo dedicou uma página inteira no último dia 3 de novembro para contar o drama dos novos samaritanos de Israel. A matéria é bem interessante e apresenta números assustadores. Havia apenas 147 samaritanos em 1967 e hoje são 750, graças à iniciativa de permitir o casamento misto.*

É claro que o abandono da endogamia, procriação consanguínea entre membros da comunidade, não foi a única medida adotada para salvar os samaritanos da extinção, a ciência está dando uma mãozinha. Ultrassonografia e outros exames no pré-natal são obrigatórios pois a tradição do casamento consanguíneo é a maior causa de anomalias como surdez, cegueira e deficiência mental. Por conta disso, o aborto é autorizado e até mesmo incentivado!

Segundo a matéria, as novas samaritanas são oriundas da Europa Oriental; e a ideia de “importar” as noivas foi fruto da frustração dos membros da comunidade que não conseguiam encontrar um par aceitável entre suas primas. Depois de pesquisarem na internet, encontraram sites de mulheres ucranianas que procuravam noivos estrangeiros que lhes oferecessem uma vida confortável. E o casamento acontece sem a necessidade de proselitismo.

O erro dos samaritanos parece estar mesmo no sangue. Não estou falando da consanguinidade que causa as anomalias genéticas como mencionado na matéria, estou falando do erro dos samaritanos na insistência do casamento que mistura o sangue do “povo eleito” com outros povos. É mais do mesmo 2500 anos depois!

Já ouvi explicações das mais alucinadas para o porquê da picuinha entre judeus e samaritanos presente no Novo Testamento. E quero aproveitar esse gancho da matéria para apresentar minha explicação para o caso que encontra suporte na matéria de O Globo. Melhor, vou extrair na íntegra o trecho da matéria que explica a origem dos samaritanos e depois apresento os textos bíblicos.

“Sua origem é debatida entre pesquisadores. Eles acreditam serem descendentes diretos de duas das 12 tribos de Israel (derivadas dos 12 filhos do patriarca bíblico Jacó): Menashe e Efraim. Teriam se tornado uma religião à parte depois da conquista da Terra Santa por Nabucodonosor, em 587 a.C.. Os samaritanos ficaram na judeia ocupada, enquanto os israelitas passaram meio século na Babilônia. Quando voltaram, a dissonância entre as religiões já era grande demais. Outra teoria é de que são fruto da mistura de judeus locais com populações estrangeiras levadas para lá.”*

A primeira teoria explica somente a origem do preconceito dos judeus contra os samaritanos, mas a segunda teoria explicar melhor a origem do preconceito e da própria origem do povo, uma vez que os judeus não os reconheciam mais como israelitas, mas como um novo povo. A mistura dos samaritanos com outros povos, se é que ficaram remanescentes originais da cidade após a conquista pela Assíria, foi tão profunda que eles na verdade foram assimilados pela outra cultura, deixando de ser judeu. É surpreendente que o próprio patriarca samaritano Yousuf Cohen, de 75 anos, declara na matéria de O Globo que os samaritanos do século 21 estão literalmente “trocando de sangue”. Por que não aceitar a queixa dos judeus 2000 anos atrás?

Vamos, sem mais demora, analisar os textos bíblicos que corroboram as teorias apresentadas na matéria de O Globo.

Preconceito Religioso – Quando o reino unificado do período de Davi e Salomão entra em colapso, Jeroboão, que assume o reino do norte após a morte de Salomão, pensa numa estratégia para evitar que o povo tenha contato com o reino do sul. A história está registrada em 1 Reis 12:25-31, vejamos:

O rei Jeroboão, de Israel, cercou de muralhas a cidade de Siquém, na região montanhosa de Efraim, e morou um pouco de tempo ali. Depois saiu e cercou de muralhas a cidade de Penuel. Então pensou: “Do jeito que as coisas estão, se o meu povo for a Jerusalém oferecer no Templo sacrifícios ao SENHOR Deus, os corações deles vão cair para o lado de Roboão, rei de Judá, e eles me matarão.” Por isso, ele fez dois touros de ouro e disse ao seu povo: — Já chega de ir a Jerusalém para adorar a Deus. Povo de Israel, aqui estão os seus deuses, que tiraram vocês do Egito! Ele colocou um dos touros de ouro em Betel e o outro em Dã. E assim o povo pecou, indo adorar em Betel e em Dã. Jeroboão também construiu lugares de adoração no alto dos morros e escolheu para sacerdotes homens que não eram da tribo de Levi.

Se continuarmos lendo até o capítulo 13 verso 10 encontraremos mais dois relatos significativos para a compreensão do preconceito religioso. Além de estabelecer a idolatria dos touros de ouro, Jeroboão também ordena a celebração de uma festa na mesma data da festa religiosa em Judá, reino do sul, para competir com eles. Lembre-se que a estratégia era fazer com que o povo do norte não tivesse contato com o povo do sul. E estas atitudes de Jeroboão foram condenadas por um profeta de Judá, e a coisa toda acontece de forma traumática. Quando Jeroboão aponta para o profeta e dá ordens para prendê-lo, seu braço fica paralisado!

Esse então é o relato central para explicar a origem do racha religioso entre o reino do norte e do sul, Israel e Judá respectivamente. Mas onde está a conexão de tudo isso com os samaritanos? Fácil, Samaria é a capital do reino do norte, assim como Jerusalém era a capital do reino do sul. É claro que os samaritanos não são responsáveis diretos pelo caos religioso, mas não é possível separar os samaritanos da religião idólatra que foi adotada em todo o território do norte, incluindo a capital Samaria.

O Preconceito Racial – Depois que o reino do norte caiu nas mãos da Assíria, a capital Samaria foi ocupada pelos assírios, uma ocupação permanente para marcar presença no território conquistado. 

Então Salmaneser invadiu Israel e cercou a cidade de Samaria. No terceiro ano do cerco, que era o nono ano do reinado de Oséias, o rei da Assíria conquistou a cidade de Samaria e levou os israelitas para a Assíria como prisioneiros. Ele mandou que alguns fossem morar na cidade de Hala, outros, perto do rio Habor, que fica no distrito de Gozã, e ainda outros, nas cidades da Média. A cidade de Samaria foi conquistada porque os israelitas pecaram contra o SENHOR, seu Deus, que os havia livrado de Faraó, rei do Egito, e os havia tirado para fora daquele país. Eles adoraram outros deuses, seguiram os costumes dos povos que o SENHOR havia expulsado conforme eles avançavam e seguiram também os costumes adotados pelos reis de Israel. 2 Reis 17:5-8
O rei da Assíria trouxe gente das cidades de Babilônia, Cutá, Iva, Hamate e Sefarvaim e os fez morar nas cidades de Samaria, em lugar dos israelitas que haviam sido levados como prisioneiros. Esses assírios tomaram posse daquelas cidades e ficaram morando ali. 2 Reis 17:24

Continuando a leitura de 2 Reis 17:24 até o verso 41 aprendemos que o povo que ocupou a cidade estava sendo atacado por leões. Acreditava-se naquela época que os deuses eram territoriais, e o povo que passou a habitar aquela terra deveria adorar o Deus do território de Samaria. O rei assírio deu ordem para que um sacerdote samaritano fosse levado de volta para habitar Samaria juntamente com os novos “colonizadores” e ensinar como adorar o Deus daquela terra para aplacar sua ira e acabar com a “praga” dos leões.

Conclusão, os moradores de Samaria, os novos samaritanos do período neotestamentário não são de fato israelitas. Os novos samaritanos são oriundos de outros povos que habitaram a capital do reino do norte após a conquista do território pela Assíria e que apenas adotaram as práticas religiosas dos samaritanos originais.

Precisamos nos lembrar que no retorno do exílio o povo trabalha na reconstrução da cidade de Jerusalém, do Templo e da “purificação” do povo como relatado nos livros de Esdras e Neemias. A reforma de Neemias condenava o casamento de judeus com mulheres estrangeiras, leia o capítulo 13 do livro de Neemias. É claro que os judeus rejeitariam os samaritanos diante desta “fobia” por mistura estrangeira relatada em Neemias.

É interessante perceber que no relato de 2 Reis 17, que apresenta a origem dos novos samaritanos como povo estrangeiro que apenas adotou as tradições religiosas, mas sem nenhuma conexão de sangue (não eram israelitas de fato), encontramos as seguintes declarações: “Até hoje eles continuam com os seus costumes”, e “até hoje os seus descendentes continuam a fazer a mesma coisa”, versículos 34 e 41 respectivamente.

O próprio relato bíblico, portanto, demonstra que o redator ou autor do texto de 2 Reis é bem posterior aos eventos relatados. É possível que o autor/redator não tenha presenciado os eventos que está relatando e já estaria bem mais tarde na linha do tempo tentando explicar pelo seu relato o porquê do preconceito contra os samaritanos – o que já pode ser percebido no período de Neemias durante a reforma da cidade e da própria religião  judaica, preconceito que se arrasta até chegar no Novo Testamento.

“Ela disse isso porque os judeus não se dão com os samaritanos” – João 4:9




Autor: André R. Fonseca
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca
Fonte da imagem: http://commons.wikimedia.org/wiki/File:Samaritan.jpg?uselang=pt-br
* Os novos samaritanos de Israel por Daniela Kresch. O Globo – Sábado 3/11/2012, página 30.
Citações bíblicas da Nova Tradução na Linguagem de Hoje
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2 comentários:

  1. André,

    Texto esclarecedor. Eu acrescentaria, todavia, um dado que me parece importante. Em 167 a.C., quando o rei selêucida Antíoco Epifanes impôs severa perseguição aos judeus, os próprios samaritanos declararam ser um povo distinto:

    "quando os samaritanos viram os sofrimentos dos judeus, eles declararam não mais ser membros da mesma descendência" (JOSEFO, AJ XII 257).

    Bem, pelo menos é o que nos diz Josefo (que era fariseu).

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    1. Olá prof. Jones,
      Seria de estranhar caso o mestre não tivesse algo mais para enriquecer o trabalho de seu aluno:)

      Agradeço sua participação que de fato contribui para a formação de todo o cenário do rocha entre judeus e samaritanos.

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