segunda-feira, 8 de abril de 2013

Três coelhos numa cajadada só!

Tenho três perguntas de leitores que estão relacionadas num mesmo tema, vou tentar matar os três coelhos numa cajadada só neste artigo! As perguntas são:

1) Olá André, meu nome é Fabiana e eu estou no 5º período do Curso de Letras Inglês - MG. Estou na fase de escolher um tema para o meu trabalho de conclusão de curso (TCC) e quero fazer uma análise comparativa entre as traduções da Bíblia em Inglês e Português, as que fogem ao contexto , etc e após ler seu texto (clique aqui para ler o texto), penso que talvez você conheça livros ou autores nos quais eu possa utilizar para fazer minha pesquisa. A única coisa que está complicando o meu trabalho é a falta de bibliografia. Caso conheço algum, fico agradecida .

2) Paz André,
Depois que li seu artigo, adquiri uma AS21 e estou lendo e gostando bastante.
Também comprei uma Bíblia King James atualizada em português da editora Abba Press, é baseada no Texto Critico, gostaria de saber se você tem algo a dizer sobre ela?

3) Por que somente a tradução da Almeida Revista e Corrigida traz a tradução: " Eu amo os que me amam, e os que de madrugada me buscam me acharão" para Provérbios 8:17? A ARC é a única que traz a palavra "madrugada".

Responderei a todas as questões, não exatamente na ordem acima. Se depois da leitura qualquer leitor desejar ainda mais esclarecimentos, basta entrar em contato pelo formulário de comentários abaixo.


A tradução bíblica segue duas metodologias: a tradução por equivalência formal e a tradução por equivalência dinâmica. O primeiro método é o mais tradicional, foi o método empregado nas traduções das Almeidas Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada, assim como para a King James Version em inglês. O segundo método tem sido empregado para as traduções mais modernas, como a Almeida Revista e Atualizada, Nova Versão Internacional e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, assim como a The Living Bible em inglês.

Mas qual é a diferença nesses dois métodos de tradução? O método de tradução por equivalência formal traduz o texto, a partir dos originais grego e hebraico, palavra por palavra. Até mesmo a ordem das palavras no original são preservadas na tradução. Por exemplo, no hebraico o verbo tende a vir antes do sujeito - por isso, encontramos nas Almeidas, Gn 1.1 como: "No princípio criou Deus os céus e a terra..."; quando nas traduções por equivalência dinâmica (NVI ou NTLH) encontramos: "No princípio Deus criou os céus e a terra...". Ou seja, o verbo depois do sujeito, como é mais natural da língua receptora da tradução, o português.

Mas as diferenças não param por aí! Enquanto a tradução por equivalência formal se preocupa em traduzir palavra por palavra, a tradução por equivalência dinâmica está preocupada em transmitir na língua receptora o mesmo pensamento sem necessariamente respeitar o mesmo vocabulário e estruturas que se encontram no original grego e hebraico. Posso exemplificar facilmente fazendo algumas comparações entre o inglês e o português. "A piece of cake" seria traduzido por "um pedaço de bolo" numa tradução por equivalência formal; enquanto, numa tradução por equivalência dinâmica o tradutor apresentaria o equivalente na língua receptora ao traduzir "a piece of cake" por "mamão com açúcar", ou simplesmente por "uma moleza". "How old are you?" seria traduzido por "quão velho é você?" numa tradução por equivalência formal; e, numa tradução por equivalência dinâmica, "how old are you?" seria traduzido por "qual é a sua idade?"

Deus escolheu línguas humanas para transmitir sua mensagem, e esta mensagem estará, portanto, repleta de peculiaridades da linguagem humana. A língua é influenciada pela cultura de seu povo e época; sem entender a cultura do povo da língua, você não entenderá completamente a língua. Não é só a estrutura gramatical/sintática da língua que está em jogo, como foi demonstrado acima, mas também as figuras de linguagem. A Bíblia tem hipérboles porque foi produzida por linguagem humana, e isso é próprio da linguagem humana. Não são só as hipérboles, mas também a símile, metáfora, hipocatástase etc.

Vamos relembrar o meu parágrafo de introdução. Eu disse que mataria três coelhos numa cajadada só. Se o meu texto for traduzido para outro idioma, pode ser que o tradutor prefira traduzir o parágrafo por "vou responder as três perguntas de uma só vez". E não posso dizer que o tradutor está sendo infiel ao texto na tradução, principalmente se a expressão não tem o menor sentido na língua dele. Ele preservaria a real intenção do autor, e isso é o que importa... Pelo menos é a minha opinião, e parece ser a opinião da maioria dos tradutores bíblicos hoje. Vejamos alguns exemplos bíblicos.

Em Lucas 12:35 encontramos a expressão "cingir os lombos". O que isso significa? Naquela época os homens usavam um roupão e amarravam uma faixa na cintura. Quando precisam pegar no trabalho pesado, eles suspendiam a barra do roupão, que chegava nos pés, até a altura da cintura, encurtando o roupão pela metade. A faixa da cintura era utilizada para pender a barra do roupão na cintura. Isso eles chamavam de "cingir os lombos". Logo, a ideia era: preparar-se para trabalhar. Esse texto, numa tradução por equivalência dinâmica, poderia muito bem ser traduzido por: "vamos arregaçar as mangas"! Compare as tradução abaixo:

ARA - Cingido esteja o vosso corpo, e acesas, as vossas candeias.
ARC - Estejam cingidos os vossos lombos, e acesas, as vossas candeias.
NTLH - E Jesus disse ainda: — Fiquem preparados para tudo: estejam com a roupa bem presa com o cinto e conservem as lamparinas acesas.

Agora, vamos comparar as tradução da Almeida Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada para Provérbios 8:17.

ARC - Eu amo os que me amam, e os que de madrugada me buscam me acharão. 
ARA - Eu amo os que me amam; os que me procuram me acham.

O texto original hebraico é:  אֲ֭נִי  [אֹהֲבֶיהָ  כ]  (אֹהֲבַ֣י  ק)  אֵהָ֑ב  וּ֝מְשַׁחֲרַ֗י  יִמְצָאֻֽנְנִי׃

Se procurarmos a raiz da palavra sublinhada, podemos dizer que a tradução é "madrugada". Mas, como parte da expressão, também poderia ser traduzido como "procurar", "procurar diligentemente". Deixe-me tentar dar um exemplo comparando com uma expressão em português. 

"Deus ajuda a quem cedo madruga." A palavra "madruga" tem um valor que vai além de seu significado primário. Entendemos que está envolvido na expressão a ideia de quem se esforça para trabalhar. Aquela palavra hebraico - madrugada - tem essa mesma ideia do "cedo madruga" em nossa expressão em português. Quem dorme até a hora do almoço é um preguiçoso e não tem prazer no trabalho, não terá sucesso! Deus ajuda a quem cedo madruga. Isso não tem muito a ver com acordar de madrugada, mas simplesmente que você faz o seu trabalho com a devida energia e dedicação. É uma pressão que muito mais tem a ver com o contraste entre o preguiçoso e o diligente.

Voltando ao meu parágrafo de introdução como exemplo, imagine se meu texto sobrevive até o seculo XXVI, e alguém tem a tarefa de explicar o que escrevi depois de cinco séculos. A expressão "matar três coelhos numa cajadada só" deixou de ser usada nesses cinco séculos e ninguém mais sabe o que ela significa no século XXVI.

"Meus irmãos, no século 21 a páscoa era celebrada no ocidente com um coelhinho como símbolo. O André, cristão fervoroso, irado com a substituição de Cristo por um coelho como símbolo pascoal, matava todos esses bichinhos orelhudos a pauladas..."

Se você está rindo, não ria. Tem gente tratando o texto bíblico desse jeito! E o pior, quem compra essa interpretação literal e absurda do meu texto lá no século XXVIII vai dizer: Estamos no século 28 e desde o século 26 aprendemos que o André cruelmente matava os coelhinhos a pauladas, aí vem você dizendo que não é nada disso?! Vai contar pra outro pateta essa história de que ele queria apenas dizer que responderia a três perguntas de uma só vez.

Pessoas que não têm a mínima ideia do que significa traduzir querem julgar o que significa "tradução fiel ao original". Não sabem nem mesmo a diferença entre uma tradução e uma versão, nunca leram uma única obra de hermenêutica ou linguística, sequer conhecem as obras de Saussure, Schomsky, Jacques Derrida, ou Schleiermacher. Nunca traduziram nada, nem ao menos do espanhol para o português, não dominam nem a própria língua! 

Aqui mesmo no blog, encontro comentários de leitores dizendo que "a tradução que troca a palavra x pela palavra y está adulterando a Palavra de Deus, são traduções corrompidas com meras interpretações de homens...". Ai meu Deus do céu! agora a gente vai dizer o quê? Que João Ferreira de Almeida recebeu a tradução por psicografia? Ele não era homem? Era um anjo, por acaso? Na verdade, João Ferreira de Almeida era um "moleque" de 16 anos quando começou a traduzir os textos bíblicos. Era um homem de Deus? Claro! E os de hoje, são do diabo por acaso?

O conhecimento que temos hoje dos textos bíblicos, das línguas originais grego e hebraico e das ciências da tradução evoluíram muito desde os dias do jovenzinho Almeida. Outra coisa que mudou foi o conjunto de manuscritos disponíveis para tradução. Na época, o João Ferreira de Almeida dispunha apenas do Textus Receptus (Texto Recebido). Esse conjunto de manuscritos foi compilado por Erasmo de Roterdão em 1516 a partir dos melhor textos manuscritos disponíveis naquela época. Muitos outros manuscritos foram descobertos posteriormente, e um novo conjunto de manuscritos foi organizado a partir da comparação crítica entre as cópias de manuscritos, dando origem ao que conhecemos hoje como Texto Crítico. Vou tentar explicar rapidamente a diferença entre o Textus Receptus e o Texto Crítico.

Erasmo de Roterdão procurou pelos melhores textos manuscritos disponíveis em sua época. Juntou a melhor cópia de cada livro da Bíblia e definiu aquelas cópias como as melhores disponíveis para consulta. Esse conjunto de manuscritos também é conhecido como majoritário, porque se baseia na maioria dos manuscritos. Com a descoberta de novas cópias de manuscritos, principalmente do Novo Testamento, o número de cópias de manuscritos se tornou muito abundante. Entre textos inteiros e bem preservados e fragmentos de páginas de poucos centímetros, temos um total de mais de cinco mil cópias dos textos bíblicos. Isso é muito mais do que qualquer outro texto secular de mesma época. Os textos de Platão, por exemplo, não chega nem perto com suas míseras 7 copias.

A questão é que a abundância de cópias também expôs um grande problema. O número de divergências entre manuscritos se multiplicaram. Para determinar quais manuscritos eram mais semelhantes e divergentes por comparação, dois homens de coragem (Westcott e Hort), sem computador, compararam todos os manuscritos através de uma análise crítica de cada texto. Os mais divergentes eram descartados, e os mais convergentes ou semelhantes eram agrupados. Por isso, esse conjunto de manuscritos são conhecidos como Texto Crítico ou Texto Minoritário, porque são baseados na minoria dos textos convergentes através de uma análise crítica. Depois, foi necessário determinar o que poderia ter causado as divergências. A explicação para muitas das divergência encontrada nos manuscritos são simples, por exemplo: sabemos que essas cópias foram feitas à mão, por isso são chamadas de manuscritos. Um copista com astigmatismo lá nas alturas, não tinha nem um fundo de garrafa para ler o texto que desejava copiar; logo, ele pula uma linha do manuscrito original e produz uma nova cópia faltando algumas palavras. Ou, por descuido, acaba trocando uma letra por outra. Tudo isso causado por erro humano.

Veja que não são alterações intencionais, mas acabaram causando divergências nas novas cópias que foram preservadas até nossos dias. Um texto diz uma coisa, e outro texto diz outra coisa. Qual está certo? Por isso, a datação do documento também foi levado em conta. Como o material utilizado para receber a escrita tinha uma vida útil, seja o pergaminho ou o papiro, com o tempo e o desgaste  pelo uso, uma nova cópia do texto deveria ser feita em material novo, descartando o velho, preservando o conteúdo. Deduzimos, assim, que cópias mais tardias do século V ou VI devem ter passado por processos de cópias com maior frequência do que textos do século II. Quanto menos cópias o manuscrito sofreu, menos riscos de acidentes com copistas ceguetas e desatentos temos no documento. Essa é a lógica!

E como a base textual influencia a tradução? Simples, uma divergência entre a Almeida Revista e Corrigida e a Almeida Revista e Atualizada pode estar na origem do conjunto de manuscritos utilizados na tradução. Portanto, quando você for comparar a tradução KJV em inglês, que utiliza o Textus Receptus como sua fonte de originais grego e hebraico, você deverá também comparar com uma tradução que utilizou o mesmo Textus Receptus como fonte, a Almeida Revista e Corrigida, por exemplo. Se você compara a KJV inglesa com a NVI ou com a Almeida Revista e Atualizada, que seguem o Texto Crítico, algumas coisas estarão bem diferentes. Mas observe que são diferenças oriundas dos originais grego e hebraico, que são diferentes na origem, e não porque os tradutores deram a louca, tinham pacto com o demônio, e quiseram adulterar a Bíblia, como dizem por aí!

A pergunta que não tem resposta é: por que essa tradução com base no Texto Crítico e com uma boa dose de tradução por equivalência dinâmica está sendo vendida como a tradução em português da KJV? Essa KJV em português tem King James só no nome! Na famosa Comma Johanneum (1João 5:7-8), um clássico exemplo de divergência entre os textos Receptus e Crítico, a nota de rodapé da KJV em português traz: "apesar de a Comma Johanneum constar na versão King James original inglesa, a equipe de tradutores resolveu omitir a Comma Johanneum de acordo com o Texto Crítico...". Se eles não estão seguindo o padrão da KJV inglesa, então essa obra em português não é KJV coisíssima nenhuma! Isso me dá coceira...

Preciso também alertar para uma outra fonte de consulta muito comum, por parte dos tradutores bíblicos, que pode resultar em divergência numa tradução, a saber, a Septuaginta. Por volta do século IV a.C., o Antigo Testamento foi traduzido do original hebraico para o grego por 72 judeus, por isso ficou conhecida como septuaginta, ou versão dos setenta. Essa obra é importante porque muitas vezes precisamos recorrer à tradução da Septuaginta em grego quando o texto hebraico não está claro. Assim podemos ver como o próprio judeu lia e entendia aquele texto hebraico e como ele traduziu para o grego, funcionando como uma espécie de tira-teima para os tradutores de língua portuguesa.

Para terminar, preciso listar a bibliografia que você pode pesquisar o que falei resumidamente neste artigo.

VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto? Editora Vida.

BARNWELL, Katharine. Tradução Bíblica - Um curso introdutório aos princípios básicos de tradução - Sociedade Bíblica do Brasil.

SOARES, Esequias. Septuaginta - Um guia histórico literário. Editora Hagnos

PAROSCHI, Wilson. Crítica Textual do Novo Testamento. Edições Vida Nova.

PAROSCHI, Wilson. Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento. Sociedade Bíblica do Brasil



Autor: André R. Fonseca 
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca

Quando não especificado,
todos os textos bíblicos são citações da NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje da SBB.
Fonte da imagem:http://3.bp.blogspot.com/-Qhf1KH_lT10/T9XH-bQWfuI/AAAAAAAAAFg/g9GVkfahSFY/s200/2coelhos.jpg

10 comentários:

  1. Olá André. Tenho lido alguns de seus textos, e agora com a AS21 principalmente, pois até hoje acho que não consegui escolher uma bíblia para estudo e da qual decorar os textos... comecei com a NTLH, fui pra ARA, daí NVI e agora estou na AFC, porém de olho nessa seculo 21. Alguma coisa tenho lido na AMP, a qual gosto muito por resolver problemas como o da 'madrugada' q vc citou: "I love those who love me, and those who seek me early and diligently shall find me."
    Fica algo assim: ...e aqueles que me buscam cedo e diligentemente me encontrarão.
    Bom, tenho algumas dúvidas (algumas de curiosidade, outras mais importantes) - no caso serão mais que 3 coelhos... by the way, na imagem q vc postou tem apenas 2 coelhos!
    1. Vi que existe a 21st century king james version - KJ21. Será que é a mesma linha da AS21?
    2. Vejo que a NVI e a AS21 tem o mesmo proposito: fluencia. Uma apela mais para a tradição que a outra, mas o texto usado é o mesmo e me parece q também essa almeida usa a equivalencia dinamica. Nisto fica minha dúvida.. qual a diferença entre as duas (tirando questões como uso de 2a. pessoa etc)? .. qual será melhor?
    3. O texto crítico vem de manuscritos mais antigos que o texto recebido. Mas notei que você fala sobre uma revisão crítica feita pelos dois irmãos de vários textos, uns 5 mil. Quando diz isso, quer dizer que participou dessa revisão inclusive o texto recebido, ou a revisão se deu com esses manuscritos antigos, datados dos primeiros seculos?
    4. Entendo que a questão não se trata da tradução/tradutores, mas do texto usado. Minha dúvida principal (e que imagino que não tenha resposta..) é quanto a estes textos originais.
    4.a) Primeiramente, porque a maioria (senão todas) as versões/traduções mais modernas da bíblia tem tomada base com o texto crítico? Por que tem sido a preferencia geral dos tradutores? Por que não temos mais traduções usando o texto recebido?
    4.a)@-Complementando essa questão, para atender aqueles que tem preferencia pelo texto recebido, mas ao mesmo tempo ao proposito de apresentar uma linguagem mais fluente, por que não temos versões tipo Almeida Fiel na Linguagem de Hoje?
    4.b) Insistindo na pergunta, por que a preferencia tão massissa pelo texto critico? A argumentação em favor de cada texto é polemica, mas essa polemica não tem se refletido nas obras produzidas. A polemica é esta: o TR por um lado é mal visto pelo fato de ser mais recente; mas, se é mais recente signifca que ele foi um texto muito popular (aqui destaco minha intriga, pois hoje não tem sido mais tão popular assim. Pq?), portanto muito bom, que foi recopiado várias vezes - o que também o torna mais sucetível a erros. Por outro lado, o TR é mais antigo, e por isso se dirá que ele está mais preservado, mais próximo ao original. Porém, a questão é: por que foi preservado? Se foi guardado em vasos ele se preservou, mas isso significa também que era muito pouco usado, foi pouco copiado e isso provoca um questionamento, pois é possível que fosse um texto ruim. Parece até mesmo que uma vez tentaram queimá-lo devido a isso. Algumas das evidencias são a ausencia de trechos de textos, o que pra mim configura um sinal de fraqueza.
    Sendo assim, voltando á questão, o que tem motivado as pessoas hoje a utilizarem-no tanto?

    Bem, são estas minhas questões no momento. Obrigado!

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    1. Vamos lá, tentarei responder a tudo da melhor maneira possível. Se deixar escapar alguma coisa, volte a comentar. (O terceiro coelho está afogado, submerso, você não o viu ;) kkkk)

      Também passo pela mesma crise. Minha esposa não aguenta mais minha mania de comprar bíblias. De tempo em tempo eu compro uma nova bíblia, numa nova tradução, pra recomeçar a leitura para decorar e marcar os textos. Espero um dia, como você, superar essa coisa que, às vezes, é até motivo de ansiedade.

      1. Não sei dizer se é a mesma linha ou não (KJ21 e AS21) em todos os aspectos. A AS21 é uma atualização da linguagem da versão Almeida publicada pela Imprensa Bíblica do Brasil. Algumas traduções, que seguem orientação teológica/hermenêutica, foram mantidas. Por exemplo, compare Ezequiel 28:16. Ou seja, a AS21 é ainda a mesma Almeida da IBB com apenas a atualização do português, privilegiando a fluência para o leitor de hoje. A KJ21 deve ter essa mesma característica, mas diferem, provavelmente, na base textual. A AS21 usa o texto crítico e a KJ21, texto recebido.

      2. A NVI é um pouco mais dinâmica do que a AS21. A formatação também é diferente. A AS21 traz a tradicional divisão do texto por versículos. A NVI traz os versículos agrupados em perícopes. Ela também afasta da margem os textos que são poéticos para diferenciar um estilo literário narrativo de poético, ou citação etc. Algumas traduções de textos onde o hebraico ou grego são obscuros, elas podem diferir na redação final do texto. Gosto muito, por exemplo, como a NVI traduz 2Timóteo 4:2. Se quiser ler mais sobre o assunto, siga o link: http://www.andrerfonseca.com/2012/01/comentario-biblico-2-timoteo-42.html

      3. Se você se refere ao trabalho de westcott e Hort, sim, todos os manuscritos (incluindo o recebido) foram comparados com os mais antigos.

      4a) justamente por entender hoje que o texto recebido está ultrapassado. O que Erasmo de Roterdan fez em sua época foi uma seleção dos melhores textos disponíveis em sua época. Veja que a primeira edição do texto recebido não tinha a comma joanina (1joão 5:7-8), que foi incluída na quinta edição por força dos editores da poliglota complutense. Se quiser saber mais sobre o assunto, acesso o link: http://www.andrerfonseca.com/2013/12/gosto-muito-de-tudo-isso.html

      Os adoradores da ACF não fazem uma atualização da versão no estilo da NTLH porque há uma superstição não só quanto ao texto, mas também a linguagem empregada. Dizem que o português da NTLH é chulo, depreciativo para a Palavra de Deus!!!! É um dramalhão ridículo. Já perdi tempo discutindo com esses caras que nunca conseguiram me mostrar quando foi que a NTLH rompeu com a gramatica normativa ou com a linguagem culta do nosso idioma. Eles nem sabem o que isso significa! Há uma idolatria pelo texto e pela linguagem do texto.

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    2. 4b) Se não me falha a memória o texto que quase foi queimado (ou jogado no lixo) foi o sinaítico. Bem, quem tentou queimar? Não será que foi alguém parecido com os adoradores da ACF? ;) Olha, desde Erasmo os textos descobertos são abundantes. Considere apenas a contribuição dos manuscritos do mar morto, por exemplo. E recentemente foram descobertos textos do evangelho de marcos datados provavelmente do segundo século! Todos as divergências entre manuscritos são rastreados de forma a identificar o porquê do erro/divergência. E tem se provado com significativa razoabilidade que foram erros mesmo de copistas. Copista que pula uma linha, troca uma letra por outra e assim por diante. Há divergência teológica entre copistas que trocaram propositalmente certos termos. Notas marginais que passaram a ser incorporadas no texto etc. Recomendo a leitura de alguns livros:

      Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento | Wilson Paroschi / Sociedade Bíblica do Brasil

      O Texto do Antigo Testamento | Ernst Würthwein / SBB

      O Texto do Novo Testamento: introdução às edições científicas do Novo Testamento Grego bem como à teoria e prática da moderna crítica textual. Kurt Aland e Barbara Aland. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2013.

      Este último é mais importante porque foi escrito pelos grandes nomes da Crítica Textual, que deixaram como legado o texto grego (crítico) utilizado pelas sociedades bíblicas em todo o mundo.

      Para entender um pouco mais sobre os métodos de tradução, recomendo: Tradução Bíblica - Um curso introdutório aos princípios básicos de tradução | Katharine Barnwell - Adaptação e Revisão por Linda Niehoffe e Dr. Vilson Scholz / SBB 2011 - 3ª Edição

      A ausência de trechos do texto não significa fraqueza. Primeiro, vc deveria provar como isso compromete a fé ou doutrina. No máximo é uma tempestade em copo d'água.

      Recomendo a leitura do texto do Luis Sayão: http://www.andrerfonseca.com/2015/02/o-desafio-de-uma-traducao-biblica.html

      O texto mais antigo não é o único critério na avaliação da seleção do texto para compor o texto crítico. Há outros fatores. Acredito que deixo tudo explicadinho aqui: http://www.andrerfonseca.com/2011/12/um-clubinho-farisaico-em-defesa-das.html

      Recomendo também a leitura da minha sério sobre o site "solascriptura" que defende a ACF. Siga o link para o primeiro da sério: http://www.andrerfonseca.com/2013/07/o-solascriptura-ttorg-e-suas-acusacoes.html

      Pra ser sincero, acho que só não adoto a NVI definitivamente por causa do meu preciosismo. Não encontrei ainda uma NVI com nova ortografia. rsrsrs E fico também na expectativa de adotar a boa e velha Almeida Revista e Atualizada que será lançada pela SBB em 3 ou 4 anos com nova revisão para retirar os arcadismo, tipo: primípara, chocarrices, beneplácito e outras bizarrices que ninguém mais usa ;)

      Espero ter ajudado. Se não, volte a comentar.


      Um abraço,
      André R. Fonseca

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  2. Shalom André.
    kkk eu sinto esse prazer em adquirir novas bíblias também. Há toda uma magia, uma emoção ao começar a usar uma nova. Mas eu tento tanto quanto possível contra argumentar contra isso e repreender essa sensação, pois acho que há um risco aí de dar atenção à letra escrita em vez do Espírito, que fala aos nossos corações qualquer que seja a versão usada. Isso me deixa até com um peso na consciência, pois receio que toda essa discussão que fazemos e a energia gasta buscando melhores traduções seja um tempo perdido, que poderia/deveria estar sendo gasto buscando a Deus em espírito nas Escrituras sagradas daquele livro mesmo que está ali disponível em nossa cabeceira... apesar do prazer em falar sobre esses assuntos. E por isso mesmo perguntei se há diferença entre NVI e AS21 (em termos de conteúdo, pois o formato não importa tanto), pois eu tinha já quase a comprado essa versão, não tivesse lembrado da minha NVI. Estou aqui sentado tentando segurar meu impulso de comprar e me contentar com minha velhinha...

    Quando eu comentei sobre ACF na Linguagem de Hoje, não foi bem isso que quis dizer. Não precisa ser uma linguagem tão despojada, o que questionei foi porque não fazem um trabalho semelhante ao que fizeram na AS21, ou seja, tornar a ACF fluente na atualidade. Entende?

    Quando disse 'tradução mais fraca', não quis dizer fraca no sentido de conteúdo (embora agora pensando nisso acho que seja sim mais fraco também em conteúdo; o fato de a doutrina não se perder ao longo da Bíblia garante a força da Bíblia. Mas o texto em si, neste sentido, pra mim perde neste quesito). Mas quis dizer que ele perde para o outro texto que traz o trecho completo. Pois é mais fácil se tirar um trecho (por problema de vista p ex.) do que inventar do nada algo pra acrescentar. Então acho sinal de fraqueza porque, provavelmente, o manuscrito falto é o que contém o erro neste sentido. entende?

    Outra questão: pelo que entendi, a maior discussão se dá no novo testamento. Com o antigo, parece que não há tantos problemas, divergencias de textos etc. Considerando que o AT é muito mais antigo que o NT.... por que isso é assim?

    Vai ser lançada outra ARA?! Como assim? Essa não é a [função da] AS21? Digo.. vc não está satisfeito com a as21? Por que prefere a ARA? Qual a diferença? rsrsrs

    Sobre a NVI... acredita que nem notei diferença depois do acordo ortográfico? kk sinceramente pra mim nada mudou. Até o momento meu entendimento é o seguinte: a AS21 traz um texto mais bonito, tradicional, elegante etc. Numa cultura acostumada com Almeida, isso é valorizado. Mas eu pontuaria a NVI porque acredito que sua leitura se aproximaria da que era feito pelo povo de Deus no original. Duvido que o Pedrão usasse qualquer linguagem culta, acredito que fosse algo mais fluído e natural como é retratado pela NVI. Ela ainda consagra os textos de Jesus, embora acredito que mesmo ele falasse de forma muuuuito coloquial.

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    1. A Sociedade Bíblica Trinitariana já até fiz uma atualização da linguagem. Dá uma pesquisada. Eu mesmo não conferi, mas um adepto da ACF disse uma vez pra mim que fizeram sim.

      Se você estudar o trabalho da crítica textual e como essa análise dos manuscritos é realizada, caso a caso, verá que não é tão simples afirmar que a fraqueza está só na extração. Há casos inquestionáveis de acréscimo. O caso mais famoso é o da Comma Joanina, se você ler o meu artigo sobre o assunto você vai entender melhor. Leu? Se não, segue o link mais uma vez: http://www.andrerfonseca.com/2013/12/gosto-muito-de-tudo-isso.html

      O AT sofre menos com a crítica textual por dois motivos. Primeiro o zelo e "profissionalismo" dos copistas. Não era qualquer pessoa que fazia uma cópia do AT. Por já ser considerado Escritura, os escriba tinham todo o zelo na produção da cópia. Criaram diversos métodos para se certificar que a cópia era perfeita. Até mesmo a contagem das letras e a totalização de cada linha e página era aferida por meio da "guematria". E segundo porque pela mesma tradição zelosa as cópias que chegaram até nós eram sempre muito bem preservadas em harmonia de cópias. Ou seja, quando uma nova cópia era feita com alguma adaptação teológica, as antigas eram descartadas e somente esta nova era preservada e servia de modelo. Então o que sobrou pra gente é sempre a última cópia. As anteriores desapareceram. Sobrou muito pouca coisa. Por isso que o achado dos manuscritos do mar morto foram e ainda são muito importantes, porque são texto dos séculos segundo antes de Cristo, no máximo um século após. Há certas divergências textuais do AT que são comprovadas por meio dos manuscritos do mar morto. Lembre-se que o texto do AT que temos hoje é resultado dos massoretas, obra do sexto século se não me engano. O texto do NT sofre mais com a crítica textual porque a princípios não eram considerados Escritura (como o AT já era considerado) e não houve, nem de longe, o mesmo zelo na produção das cópias.

      A ARA é da Sociedade Bíblica Brasileira, a AS21 é da parceria hagnos/vida e trata-se da atualização da Almeida publicada pela Imprensa Bíblica Brasileira. Ou seja, embora ancoradas na Almeida, são obras diferentes. Há certos pontos de tradução que elas divergem. Compare Ezequiel 28:16 na ARA e AS21.

      Sim, você está certo, TODOS os textos do NT foram escritos em grego koiné... o grego usado pelo povão e não o grego clássico da elite, dos poetas e filósofos.

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    2. Esqueci de dizer que a Septuaginta é ferramenta importantíssima para comparar o AT. A Septuaginta foi escrita com base num manuscrito do segundo século antes de Cristo, o Texto Massorético é do século sexto, e podemos encontrar pequenas divergências.

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    3. Muitas notas de rodapé da sua bíblia nvi apontam para divergências entre o TM e a LXX. Exemplos: 2Crônicas 10:18, 26:05; Jó 23:2; Isaías 23:10; Jeremias 31:32 só pra citar alguns.

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  3. Eu já tinha lido esse artigo sim. Mas nesse caso não vejo como caso de acréscimo. O acréscimo foi feito na edição da compilação do Erasmo. Não nos manuscritos das cópias dos textos sagrados. Assim continuo a achar mais plausível dizer q os manuscritos q não tem o texto o retiraram, e não que os outros acrescentaram.

    Sobre os manuscritos do Mar morto to meio por fora são textos mais antigos que os q normalmente eram usados? O texto base q usamos eh do 6° século depois de Cristo? Não entendi bem.

    Só ainda não entendi também o pq de dia preferência pela ARA

    Mas obrigado pela contribuição, tem sido bem esclarecedor!

    Shalom.

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    1. Erasmo só adicionou o trecho na quinta edição do Texto Recebido depois que apresentaram a ele um manuscrito. Há abundantes casos de acréscimos nos manuscritos. Sugiro que pesquise um pouco mais sobre o assunto.

      Sim, o texto massorético (o texto da edição Stuttgartensia) é mais recente que o texto do mar morto.

      Paz!

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    2. Ok.. mas me chamou a atenção vc dizer que é do 6º século depois de Cristo. Os copistas/escribas continuaram a trabalhar mesmo depois da destruição do templo de Jerusalém, dispersão, submissão...?

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