segunda-feira, 8 de abril de 2013

Três coelhos numa cajadada só!

Tenho três perguntas de leitores que estão relacionadas num mesmo tema, vou tentar matar os três coelhos numa cajadada só neste artigo! As perguntas são:

1) Olá André, meu nome é Fabiana e eu estou no 5º período do Curso de Letras Inglês - MG. Estou na fase de escolher um tema para o meu trabalho de conclusão de curso (TCC) e quero fazer uma análise comparativa entre as traduções da Bíblia em Inglês e Português, as que fogem ao contexto , etc e após ler seu texto (clique aqui para ler o texto), penso que talvez você conheça livros ou autores nos quais eu possa utilizar para fazer minha pesquisa. A única coisa que está complicando o meu trabalho é a falta de bibliografia. Caso conheço algum, fico agradecida .

2) Paz André,
Depois que li seu artigo, adquiri uma AS21 e estou lendo e gostando bastante.
Também comprei uma Bíblia King James atualizada em português da editora Abba Press, é baseada no Texto Critico, gostaria de saber se você tem algo a dizer sobre ela?

3) Por que somente a tradução da Almeida Revista e Corrigida traz a tradução: " Eu amo os que me amam, e os que de madrugada me buscam me acharão" para Provérbios 8:17? A ARC é a única que traz a palavra "madrugada".

Responderei a todas as questões, não exatamente na ordem acima. Se depois da leitura qualquer leitor desejar ainda mais esclarecimentos, basta entrar em contato pelo formulário de comentários abaixo.


A tradução bíblica segue duas metodologias: a tradução por equivalência formal e a tradução por equivalência dinâmica. O primeiro método é o mais tradicional, foi o método empregado nas traduções das Almeidas Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada, assim como para a King James Version em inglês. O segundo método tem sido empregado para as traduções mais modernas, como a Almeida Revista e Atualizada, Nova Versão Internacional e a Nova Tradução na Linguagem de Hoje, assim como a The Living Bible em inglês.

Mas qual é a diferença nesses dois métodos de tradução? O método de tradução por equivalência formal traduz o texto, a partir dos originais grego e hebraico, palavra por palavra. Até mesmo a ordem das palavras no original são preservadas na tradução. Por exemplo, no hebraico o verbo tende a vir antes do sujeito - por isso, encontramos nas Almeidas, Gn 1.1 como: "No princípio criou Deus os céus e a terra..."; quando nas traduções por equivalência dinâmica (NVI ou NTLH) encontramos: "No princípio Deus criou os céus e a terra...". Ou seja, o verbo depois do sujeito, como é mais natural da língua receptora da tradução, o português.

Mas as diferenças não param por aí! Enquanto a tradução por equivalência formal se preocupa em traduzir palavra por palavra, a tradução por equivalência dinâmica está preocupada em transmitir na língua receptora o mesmo pensamento sem necessariamente respeitar o mesmo vocabulário e estruturas que se encontram no original grego e hebraico. Posso exemplificar facilmente fazendo algumas comparações entre o inglês e o português. "A piece of cake" seria traduzido por "um pedaço de bolo" numa tradução por equivalência formal; enquanto, numa tradução por equivalência dinâmica o tradutor apresentaria o equivalente na língua receptora ao traduzir "a piece of cake" por "mamão com açúcar", ou simplesmente por "uma moleza". "How old are you?" seria traduzido por "quão velho é você?" numa tradução por equivalência formal; e, numa tradução por equivalência dinâmica, "how old are you?" seria traduzido por "qual é a sua idade?"

Deus escolheu línguas humanas para transmitir sua mensagem, e esta mensagem estará, portanto, repleta de peculiaridades da linguagem humana. A língua é influenciada pela cultura de seu povo e época; sem entender a cultura do povo da língua, você não entenderá completamente a língua. Não é só a estrutura gramatical/sintática da língua que está em jogo, como foi demonstrado acima, mas também as figuras de linguagem. A Bíblia tem hipérboles porque foi produzida por linguagem humana, e isso é próprio da linguagem humana. Não são só as hipérboles, mas também a símile, metáfora, hipocatástase etc.

Vamos relembrar o meu parágrafo de introdução. Eu disse que mataria três coelhos numa cajadada só. Se o meu texto for traduzido para outro idioma, pode ser que o tradutor prefira traduzir o parágrafo por "vou responder as três perguntas de uma só vez". E não posso dizer que o tradutor está sendo infiel ao texto na tradução, principalmente se a expressão não tem o menor sentido na língua dele. Ele preservaria a real intenção do autor, e isso é o que importa... Pelo menos é a minha opinião, e parece ser a opinião da maioria dos tradutores bíblicos hoje. Vejamos alguns exemplos bíblicos.

Em Lucas 12:35 encontramos a expressão "cingir os lombos". O que isso significa? Naquela época os homens usavam um roupão e amarravam uma faixa na cintura. Quando precisam pegar no trabalho pesado, eles suspendiam a barra do roupão, que chegava nos pés, até a altura da cintura, encurtando o roupão pela metade. A faixa da cintura era utilizada para pender a barra do roupão na cintura. Isso eles chamavam de "cingir os lombos". Logo, a ideia era: preparar-se para trabalhar. Esse texto, numa tradução por equivalência dinâmica, poderia muito bem ser traduzido por: "vamos arregaçar as mangas"! Compare as tradução abaixo:

ARA - Cingido esteja o vosso corpo, e acesas, as vossas candeias.
ARC - Estejam cingidos os vossos lombos, e acesas, as vossas candeias.
NTLH - E Jesus disse ainda: — Fiquem preparados para tudo: estejam com a roupa bem presa com o cinto e conservem as lamparinas acesas.

Agora, vamos comparar as tradução da Almeida Revista e Corrigida e Almeida Revista e Atualizada para Provérbios 8:17.

ARC - Eu amo os que me amam, e os que de madrugada me buscam me acharão. 
ARA - Eu amo os que me amam; os que me procuram me acham.

O texto original hebraico é:  אֲ֭נִי  [אֹהֲבֶיהָ  כ]  (אֹהֲבַ֣י  ק)  אֵהָ֑ב  וּ֝מְשַׁחֲרַ֗י  יִמְצָאֻֽנְנִי׃

Se procurarmos a raiz da palavra sublinhada, podemos dizer que a tradução é "madrugada". Mas, como parte da expressão, também poderia ser traduzido como "procurar", "procurar diligentemente". Deixe-me tentar dar um exemplo comparando com uma expressão em português. 

"Deus ajuda a quem cedo madruga." A palavra "madruga" tem um valor que vai além de seu significado primário. Entendemos que está envolvido na expressão a ideia de quem se esforça para trabalhar. Aquela palavra hebraico - madrugada - tem essa mesma ideia do "cedo madruga" em nossa expressão em português. Quem dorme até a hora do almoço é um preguiçoso e não tem prazer no trabalho, não terá sucesso! Deus ajuda a quem cedo madruga. Isso não tem muito a ver com acordar de madrugada, mas simplesmente que você faz o seu trabalho com a devida energia e dedicação. É uma pressão que muito mais tem a ver com o contraste entre o preguiçoso e o diligente.

Voltando ao meu parágrafo de introdução como exemplo, imagine se meu texto sobrevive até o seculo XXVI, e alguém tem a tarefa de explicar o que escrevi depois de cinco séculos. A expressão "matar três coelhos numa cajadada só" deixou de ser usada nesses cinco séculos e ninguém mais sabe o que ela significa no século XXVI.

"Meus irmãos, no século 21 a páscoa era celebrada no ocidente com um coelhinho como símbolo. O André, cristão fervoroso, irado com a substituição de Cristo por um coelho como símbolo pascoal, matava todos esses bichinhos orelhudos a pauladas..."

Se você está rindo, não ria. Tem gente tratando o texto bíblico desse jeito! E o pior, quem compra essa interpretação literal e absurda do meu texto lá no século XXVIII vai dizer: Estamos no século 28 e desde o século 26 aprendemos que o André cruelmente matava os coelhinhos a pauladas, aí vem você dizendo que não é nada disso?! Vai contar pra outro pateta essa história de que ele queria apenas dizer que responderia a três perguntas de uma só vez.

Pessoas que não têm a mínima ideia do que significa traduzir querem julgar o que significa "tradução fiel ao original". Não sabem nem mesmo a diferença entre uma tradução e uma versão, nunca leram uma única obra de hermenêutica ou linguística, sequer conhecem as obras de Saussure, Schomsky, Jacques Derrida, ou Schleiermacher. Nunca traduziram nada, nem ao menos do espanhol para o português, não dominam nem a própria língua! 

Aqui mesmo no blog, encontro comentários de leitores dizendo que "a tradução que troca a palavra x pela palavra y está adulterando a Palavra de Deus, são traduções corrompidas com meras interpretações de homens...". Ai meu Deus do céu! agora a gente vai dizer o quê? Que João Ferreira de Almeida recebeu a tradução por psicografia? Ele não era homem? Era um anjo, por acaso? Na verdade, João Ferreira de Almeida era um "moleque" de 16 anos quando começou a traduzir os textos bíblicos. Era um homem de Deus? Claro! E os de hoje, são do diabo por acaso?

O conhecimento que temos hoje dos textos bíblicos, das línguas originais grego e hebraico e das ciências da tradução evoluíram muito desde os dias do jovenzinho Almeida. Outra coisa que mudou foi o conjunto de manuscritos disponíveis para tradução. Na época, o João Ferreira de Almeida dispunha apenas do Textus Receptus (Texto Recebido). Esse conjunto de manuscritos foi compilado por Erasmo de Roterdão em 1516 a partir dos melhor textos manuscritos disponíveis naquela época. Muitos outros manuscritos foram descobertos posteriormente, e um novo conjunto de manuscritos foi organizado a partir da comparação crítica entre as cópias de manuscritos, dando origem ao que conhecemos hoje como Texto Crítico. Vou tentar explicar rapidamente a diferença entre o Textus Receptus e o Texto Crítico.

Erasmo de Roterdão procurou pelos melhores textos manuscritos disponíveis em sua época. Juntou a melhor cópia de cada livro da Bíblia e definiu aquelas cópias como as melhores disponíveis para consulta. Esse conjunto de manuscritos também é conhecido como majoritário, porque se baseia na maioria dos manuscritos. Com a descoberta de novas cópias de manuscritos, principalmente do Novo Testamento, o número de cópias de manuscritos se tornou muito abundante. Entre textos inteiros e bem preservados e fragmentos de páginas de poucos centímetros, temos um total de mais de cinco mil cópias dos textos bíblicos. Isso é muito mais do que qualquer outro texto secular de mesma época. Os textos de Platão, por exemplo, não chega nem perto com suas míseras 7 copias.

A questão é que a abundância de cópias também expôs um grande problema. O número de divergências entre manuscritos se multiplicaram. Para determinar quais manuscritos eram mais semelhantes e divergentes por comparação, dois homens de coragem (Westcott e Hort), sem computador, compararam todos os manuscritos através de uma análise crítica de cada texto. Os mais divergentes eram descartados, e os mais convergentes ou semelhantes eram agrupados. Por isso, esse conjunto de manuscritos são conhecidos como Texto Crítico ou Texto Minoritário, porque são baseados na minoria dos textos convergentes através de uma análise crítica. Depois, foi necessário determinar o que poderia ter causado as divergências. A explicação para muitas das divergência encontrada nos manuscritos são simples, por exemplo: sabemos que essas cópias foram feitas à mão, por isso são chamadas de manuscritos. Um copista com astigmatismo lá nas alturas, não tinha nem um fundo de garrafa para ler o texto que desejava copiar; logo, ele pula uma linha do manuscrito original e produz uma nova cópia faltando algumas palavras. Ou, por descuido, acaba trocando uma letra por outra. Tudo isso causado por erro humano.

Veja que não são alterações intencionais, mas acabaram causando divergências nas novas cópias que foram preservadas até nossos dias. Um texto diz uma coisa, e outro texto diz outra coisa. Qual está certo? Por isso, a datação do documento também foi levado em conta. Como o material utilizado para receber a escrita tinha uma vida útil, seja o pergaminho ou o papiro, com o tempo e o desgaste  pelo uso, uma nova cópia do texto deveria ser feita em material novo, descartando o velho, preservando o conteúdo. Deduzimos, assim, que cópias mais tardias do século V ou VI devem ter passado por processos de cópias com maior frequência do que textos do século II. Quanto menos cópias o manuscrito sofreu, menos riscos de acidentes com copistas ceguetas e desatentos temos no documento. Essa é a lógica!

E como a base textual influencia a tradução? Simples, uma divergência entre a Almeida Revista e Corrigida e a Almeida Revista e Atualizada pode estar na origem do conjunto de manuscritos utilizados na tradução. Portanto, quando você for comparar a tradução KJV em inglês, que utiliza o Textus Receptus como sua fonte de originais grego e hebraico, você deverá também comparar com uma tradução que utilizou o mesmo Textus Receptus como fonte, a Almeida Revista e Corrigida, por exemplo. Se você compara a KJV inglesa com a NVI ou com a Almeida Revista e Atualizada, que seguem o Texto Crítico, algumas coisas estarão bem diferentes. Mas observe que são diferenças oriundas dos originais grego e hebraico, que são diferentes na origem, e não porque os tradutores deram a louca, tinham pacto com o demônio, e quiseram adulterar a Bíblia, como dizem por aí!

A pergunta que não tem resposta é: por que essa tradução com base no Texto Crítico e com uma boa dose de tradução por equivalência dinâmica está sendo vendida como a tradução em português da KJV? Essa KJV em português tem King James só no nome! Na famosa Comma Johanneum (1João 5:7-8), um clássico exemplo de divergência entre os textos Receptus e Crítico, a nota de rodapé da KJV em português traz: "apesar de a Comma Johanneum constar na versão King James original inglesa, a equipe de tradutores resolveu omitir a Comma Johanneum de acordo com o Texto Crítico...". Se eles não estão seguindo o padrão da KJV inglesa, então essa obra em português não é KJV coisíssima nenhuma! Isso me dá coceira...

Preciso também alertar para uma outra fonte de consulta muito comum, por parte dos tradutores bíblicos, que pode resultar em divergência numa tradução, a saber, a Septuaginta. Por volta do século IV a.C., o Antigo Testamento foi traduzido do original hebraico para o grego por 72 judeus, por isso ficou conhecida como septuaginta, ou versão dos setenta. Essa obra é importante porque muitas vezes precisamos recorrer à tradução da Septuaginta em grego quando o texto hebraico não está claro. Assim podemos ver como o próprio judeu lia e entendia aquele texto hebraico e como ele traduziu para o grego, funcionando como uma espécie de tira-teima para os tradutores de língua portuguesa.

Para terminar, preciso listar a bibliografia que você pode pesquisar o que falei resumidamente neste artigo.

VANHOOZER, Kevin. Há um significado neste texto? Editora Vida.

BARNWELL, Katharine. Tradução Bíblica - Um curso introdutório aos princípios básicos de tradução - Sociedade Bíblica do Brasil.

SOARES, Esequias. Septuaginta - Um guia histórico literário. Editora Hagnos

PAROSCHI, Wilson. Crítica Textual do Novo Testamento. Edições Vida Nova.

PAROSCHI, Wilson. Origem e Transmissão do Texto do Novo Testamento. Sociedade Bíblica do Brasil



Autor: André R. Fonseca 
www.andreRfonseca.com
Twitter: @andreRfonseca

Quando não especificado,
todos os textos bíblicos são citações da NTLH - Nova Tradução na Linguagem de Hoje da SBB.
Fonte da imagem:http://3.bp.blogspot.com/-Qhf1KH_lT10/T9XH-bQWfuI/AAAAAAAAAFg/g9GVkfahSFY/s200/2coelhos.jpg

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